quinta-feira, 27 de julho de 2017

Lido: Filosofia Verde

Será muito estranho ler um conto de Agustina Bessa Luís, autora das mais reconhecidas pelos bem-pensantes literários, e lembrar-me dos ambientes do Telmo Marçal, cultor de uma das mais menorizadas facetas da literatura, a ficção científica? Se é, foi o que aconteceu com esta Filosofia Verde. Trata-se de um conto macabro, mas não é bem esse o motivo por que me trouxe à memória as ficções do Marçal. Essa evocação foi questão de protagonistas e de ambiente. Nesta história, aqueles são dois homens (principalmente um) que assumiram como ofício recolher vítimas de morte súbita que caiam fulminadas na rua, numa cidade sem nome mas perigosamente fria, tratando a morte e a degradação da sua própria condição com o mesmo à-vontade fatalista que os protagonistas de Marçal apresentam. Este é uma cidade tão assolada pela morte que permite a existência de quem ganhe a vida simplesmente ficando de atalaia à espera que alguém caia de repente sem vida na rua, contando depois com as recompensas que familiares imagina-se que chocados mas certamente gratos lhes darão. Trata-se de uma ideia inerentemente fantástica, com tudo a ver com as distopias absolutas que encontramos nas histórias do Telmo Marçal, embora Agustina não torne o facto explícito. É aí que as histórias mais divergem, e também no substrato ideológico que lhes subjaz, pois ao passo que Marçal nunca dá às suas criaturas quaisquer elemento de esperança, não encontra nada que redima as suas personagens, Agustina escreve, no fundo, sobre o valor da amizade mesmo nas piores circunstâncias. E também na qualidade da prosa, pois Marçal, sendo bom no manejo da língua, não chega no entanto perto de Agustina.

Dito isto, vou ter aqui uma decisão a tomar quando chegar a altura de integrar no Bibliowiki as histórias desta antologia: serão os elementos fantásticos neste conto suficientes para merecer inclusão? Felizmente é decisão que pode ficar para mais tarde. Para já, leva a etiqueta, mas mais para não me passar ao lado por distração do que por outro motivo. Depois decidirei em definitivo.

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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Lido: Balada

De longe vem a tentação que assalta muitos escritores para escolherem falar de animais quando na realidade estão a falar de homens. É o que faz Mário Braga neste breve conto, apesar de não seguir pelo caminho mais comum da fábula mas pelo (neo?)realismo de um conto rural cujo protagonista é um pastor pobre. Ambientado na Serra de Queiró, agreste terra ficcional que lembra a terra fria trasmontana ou talvez as alturas da Estrela, Balada passa-se num inverno intenso, sem pasto, que faz as ovelhas do pastor definharem de fome. O contraste é feito com um rico local, cujo gado não passa necessidades independentemente das intempéries. Contraste de injustiça, naturalmente; que mal fizeram as ovelhas do protagonista para morrerem de fome quando as outras vivem sãs e anafadas? Não serão no fundo todas iguais? São estas as ideias que germinam na cabeça do pastor e o levam a tomar uma atitude. Da fome das ovelhas se fala falando da fome dos homens, e da forma como o que se faz para minorar essa fome corre sempre o risco de acabar traído, não pelos donos do poder, mas por outros homens igualmente miseráveis que, em vez de se unirem para acabar com as desigualdades, são lestos em apontar o dedo aos que violam as normas.

É um conto profundamente político, este, mesmo falando-se apenas de gado. Essa obliquidade era talvez uma necessidade no Portugal de 1948. Mas a verdade é que isso melhora a obra. O óbvio raramente é bom.

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terça-feira, 25 de julho de 2017

Lido: Os Corvos

Se lida de uma certa forma, esta pequena história de Carlos de Oliveira (de que julgo nunca antes ter lido nada) é um conto de horror, e as múltiplas citações, referências e reverências a Edgar Allan Poe que a percorrem de princípio ao fim provavelmente indicam que essa é a leitura certa. Entre o lirismo e a fantasmagoria, Os Corvos descreve uma casa de penhores e Lucas, o seu dono, com uma escrita de grande qualidade. Escrito em primeira pessoa, o conto quase não tem enredo. É daqueles contos que se dedicam a cristalizar um momento especial, ou pelo menos os derradeiros minutos ou segundos que nesse momento acabarão por desembocar. Que momento? Digamos só, para não estragar a surpresa de quem não for demasiado bom entendedor, que o narrador talvez não seja propriamente humano e talvez queira do bom (ou nem por isso) do Lucas algo bem diferente de um penhor. Algo que talvez fosse a última coisa que o Lucas quereria dar.

É mais um bom conto, este. Com apenas duas páginas talvez se pudesse julgá-lo demasiado curto, mas tem a dimensão certa para o que pretende contar.

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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Lido: O Grande Segredo

É curiosa a arrumação dos contos nesta antologia. Já por mais de uma vez contos sucessivos parecem ter sido escolhidos, ou pelo menos encaixados no livro, por forma a realçar o contraste que fazem uns com os outros, mesmo quando, ou até sobretudo quando, os temas são no todo ou em parte comuns.

É o que acontece com este conto de Jorge de Sena e com o anterior, de Sophia de Mello Breyner Andresen. O fundo católico é comum a ambos, e no entanto dificilmente poderiam ser mais diferentes. Enquanto o conto de Sophia é basicamente realista (a menos que se ache que o homem ser fulminado sem motivo tem algo de miraculoso, o que não me parece), o de Sena é fantástico; ao passo que o de Sophia é no fundamental beato, Sena arma-se de iconoclastia e leva-a para dentro de um convento, mostrando-nos uma freira que é visitada por um ele que subtis pistas revelam ser o mesmíssimo Jesus Cristo que Sophia escreve a morrer, mas no conto de Sena não é homem, antes entidade luminosa, aparentemente feita de energia mais ou menos pura. Uma entidade sobrenatural que faz visitas regulares à freira. Uma entidade que, bem longe de estar morta, dificilmente se podia revelar mais viva. E esse é O Grande Segredo a que o título alude, pois só podia ficar em segredo que um Jesus Cristo insubstancial mas luminoso tivesse escolhido uma das suas "esposas" para com ela ter refulgentes encontros sexuais, para grande reverência e não menor inveja das demais freiras.

A iconoclastia, religiosa ou não, diverte-me. O fantástico agrada-me. Se a isso se soma um português de primeira água, como é o caso, só posso achar o conto ótimo.

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domingo, 23 de julho de 2017

Lido: O Homem

Sophia de Mello Breyner Andresen ganhou renome nas letras portuguesas por via da sua criação poética, não da narrativa. E, se este O Homem é típico dessa vertente da sua obra, percebo bem porquê. A narradora em primeira pessoa é uma mulher que deambula pelas ruas da cidade e de repente depara com um homem, pobre mas belíssimo, que olha o céu, imóvel, como se fosse uma representação absolutamente óbvia (tanto que até tem citação bíblica a temperar o refogado) de Jesus Cristo. Sophia ainda remói um pouco, ainda põe a sua protagonista a andar para trás e para a frente, mas é desde logo evidente que acabaria por reencontrar o tal homem, ainda que não o fosse tanto o que aconteceria quando encontrasse. E o que acontece? Pois o homem cai ao chão num lago de sangue, fulminado sabe-se lá pelo quê, num tom de melodrama completo com orfãzinha e tudo (cuja única função na história parece ser amplificar a tragédia) e que a narradora procura alcançar mas sem nunca conseguir. Algo (no conto são os outros, mas serão mesmo os outros?) a impede de alcançar, de tocar Jesus, mesmo afirmando a rematar que ele anda por aí. Há de ser questão de fé.

E nem sequer se encontra neste conto aquele uso preciso da palavra em que os poetas costumam salientar-se, à parte algumas imagens de grande qualidade que sobressaem aqui e ali. No geral, o conto é quando muito mediano. Não fiquei nada impressionado.

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sábado, 22 de julho de 2017

Lido: O Rapaz do Tambor

Tal como acontece em A Lata de Conserva, de Mário Dionísio, neste conto de Fernando Namora a escolha do ponto de vista faz toda a diferença. Como na história de Dionísio, também aqui as duras realidades do mundo são apresentadas ao leitor com a subtileza de serem vistas por olhos ingénuos, ainda que essa ingenuidade não nasça do privilégio socioeconómico mas da infância. O Rapaz do Tambor é isso mesmo, um rapaz, cuja infância é ilustrada por um quadro marcial que a família tem em casa e no qual figura em posição de destaque um tambor. Esse tambor fá-lo sonhar (ao ponto de surgir uma tenuíssima sugestão de fantástico perto do início do conto, demasiado ténue para ter alguma relevância) e é com autêntico júbilo que recebe um tambor de presente.

Entretanto, quem não for totalmente ignorante da realidade histórica dos anos 50 portugueses vai percebendo algumas coisas que o rapaz do tambor não percebe. Vai percebendo que o pai é oposicionista, por exemplo, e tem em casa reuniões clandestinas com outros antifascistas. Percebe — mais cedo que o rapaz, que também acaba por perceber — que uma viagem que o pai faz não é viagem nenhuma mas uma temporada passada nos calabouços da PIDE. Percebe que um súbito ambiente de esperança e agitação perto do fim do conto é motivado pela candidatura presidencial de Humberto Delgado. Percebe, enfim, o contexto. Muitíssimo bem entregue, esse contexto.

E depois chega o fim, um violento murro no estômago do leitor, tão congruente com tudo o resto mas ainda assim surpreendente. Um fim que, sozinho, consegue transformar um conto francamente bom num grande conto. Sim, este é um grande conto.

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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Lido: Mãe Genoveva

Mãe Genoveva é um conto com muito de neorrealista sobre uma mulher, a Mãe Genoveva do título, cuja vida se altera profundamente quando perde um filho, o seu Vicente, num acidente de trabalho numa fábrica. E é aqui que este conto de Vergílio Ferreira se afasta dos últimos, pois o fantástico assoma subtilmente quando aparece na narrativa outro filho, outro Vicente, cujo crescimento a mulher acompanha como se realmente seu filho fosse. Mas há aqui uns detalhes que sugerem que não senhor, esse fantástico é mais aparente que real, e de Vicente o novo Vicente só tem mesmo a vontade de lutar por um mundo melhor. Até que um dia desaparece e é substituído por outro, e por outro, e por muitos outros que Genoveva acolhe maternalmente, transformando-se numa base de apoio para a luta clandestina em tempos de fascismo. Tudo subtilíssimo, tudo, no fundo, todoroviano, pois a dúvida nunca anda muito longe da interpretação, o que as muitas imagens poéticas da prosa de Vergílio Ferreira só realçam. Que tenha de facto havido mulheres assim, algumas levadas ao combate por um sentido de justiça violentado, outras por tragédias pessoais ou familiares provocadas pela repressão e pela exploração, só solidifica melhor a personagem. Sim. Este conto é realmente bom.

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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Lido: A Lata de Conserva

Este conto de Mário Dionísio é praticamente perfeito para ilustrar aquilo que pode servir para pegar num conto sobre a banalidade e fazer com que deixe de ser banal e por isso desinteressante, especialmente pelo contraste que faz com o conto anterior, Desportos de Inverno. De facto, também em A Lata de Conserva a situação é banal. Numa cidade, provavelmente Lisboa, uma jovem ociosa e aborrecida assiste da janela a uma comoção na rua: um lojista que larga a correr atrás de um miúdo, aos gritos, situação que se resolve quando um polícia apanha o perseguido. Percebe-se facilmente que o miúdo roubou uma lata de conserva, mas o que coloca esta história vários furos acima da de Luís Forjaz Trigueiros é principalmente uma coisa: a perspetiva escolhida por Dionísio, a da jovem privilegiada, para olhar uma cena em que a miséria e a fome se confrontam com os mecanismos mais ou menos bem oleados de uma certa sociedade, cria uma subtileza na denúncia das desigualdades sociais que eleva a banalidade da cena a um patamar diferente. Este é um caso de um conto muito bem construído, no qual o ponto de vista faz toda a diferença. Também está bastante bem escrito, mas isso acaba por ser algo secundário, mesmo ajudando. E assim uma história banal ganha real interesse. Não é esta a única maneira, mas é uma maneira.

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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Lido: Desportos de Inverno

Há um tipo de conto que faz as delícias dos apreciadores da literatura realista mas de que eu nunca consegui gostar, a menos que estejam mesmo extraordinariamente bem escritos e concebidos. São os contos mundanos, que descrevem pequenos sucessos e insucessos do quotidiano. Os apreciadores da coisa deliciam-se com o reconhecimento de paisagens e personagens, adoram aquela sensação de ah, eu conheço um tipo igualzino a este gajo, uma gaja que é escarrapachada esta tipa, especialmente quando os escritores as situam em paisagens que lhes são familiares. A mim, isso enche-me de tédio, com a ressalva expressa acima. De banalidade tenho eu a vida demasiado farta para ainda gostar de apanhar com ela na literatura.

Pois bem, este Desportos de Inverno, de um Luís Forjaz Trigueiros de quem julgo que nunca antes tinha lido nada, é conto recomendável apenas aos apreciadores da banalidade. Uma cena de engate frustrado num café qualquer de Lisboa, mediano na escrita e banal nas personagens, nada nele me despertou o interesse. Não é um mau conto, entenda-se; é só um conto que me deixou uma certa sensação de tempo perdido.

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domingo, 16 de julho de 2017

Lido: Maria Altinha

Manuel da Fonseca, como Alves Redol, foi um dos escritores mais conotados com o neorrealismo e, não por acaso, o seu conto que é aqui incluído tem muitos pontos de contacto com o que o antecede. Muda o género, Maria Altinha é mulher e o rapaz de Redol é um homem mas, tal como este, também a personagem de Fonseca é pobre e trabalhadora agrícola, e por isso sujeita às violências quotidianas que acompanham essa condição no Portugal de meados do século XX. Mas o género tem importância, e a história que Manuel da Fonseca apresenta é a história de uma violação.

Sim, o conto é duro, é violento, está bem escrito e bem elaborado, mesmo não sendo daqueles contos que esmagam pela perfeição literária. Mas tenho sérias dúvidas de que consiga refletir fielmente toda a carga da situação. Manuel da Fonseca é um homem a escrever sobre uma violência sofrida sobretudo por mulheres. Percebe-se que se solidariza, mas não a sente. Pelo contrário, parece até mostrar alguma compreensão, mesmo que renitente, pelo violador e aquilo que o move. Parece querer dizer "os factos da violação são estes, tirem as vossas conclusões", mas ao mesmo tempo também parece remeter para a condição social a maior parte da responsabilidade pelo ato de violência sexual. E tudo isto me levanta reservas. Foi um conto que li com mais incómodo do que gosto, e não um incómodo bom.

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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Lido: Reflexões do Diabo

O que diria o Diabo, esse mesmo, o Mafarrico, o Coisa-Ruim, o isto e aquilo que o panteão cristão (e não só) desterrou para as fogosas profundezas do Inferno, se alguém lhe pedisse opinião sobre o que dele se vem dizendo por aí ao longo dos séculos? Coisa boa não seria de certeza, certo? Aliás, todos nós faremos uma ideia razoavelmente segura dos argumentos de tal criatura que, com grande probabilidade, não andarão longe dos que João Cerqueira aqui apresenta.

E talvez seja precisamente por aí que este livrinho (sim, "inho", que são meras 45 páginas num tipo que ainda por cima é razoavelmente corpulento) mais peca, com perdão da graçola (pecar, topam? Hi hi hi... Hi... OK, desculpem). É que o que o Diabo nos diz nestas Reflexões do Diabo (bibliografia), quase sempre, são coisas que criaturas bem menos diabólicas, bem humanas, feitas de carne, osso e algumas ideias, vêm dizendo há séculos. Elaboraram-se teologias inteiras com base nessas coisas e quando se saiu do âmbito teológico também serviram de base a muita filosofia. Pois o tema será superficialmente a defesa do Mafarrico, mas na verdade é da natureza humana e as suas falhas e insuficiências que se trata, as quais o diabólico narrador assaca, com total naturalidade, a outrem e que, no fundo, bem conhecem todos os que nutrem alguma curiosidade pelo mundo e as criaturas que nele habitam. Só chocará minimamente, julgo eu, quem pelos dogmas religiosos sinta verdadeiro fanatismo. Bem sei que existem, mas está muito longe de ser o meu caso.

Nada há aqui, portanto, de muito novo. Há uma forma humorística de apresentar as coisas, que por vezes tem real graça, há um texto com qualidade, há as ilustrações de Horácio Frutuoso, bastante interessantes mesmo que por vezes pareçam não ter muito a ver com o texto, três coisas a elevar este livro acima da mais completa banalidade. Mas não muito acima, infelizmente. Foi livro que soube a pouco, e não só pela extensão.

Este livro foi, se bem me lembro, oferta no âmbito da promoção "pague 2, leve 3" que a editora faz há largos anos. No fundo foi comprado, portanto.

domingo, 2 de julho de 2017

Lido: O Rapaz não Gostava das Mãos

Alves Redol foi uma das figuras de proa do neorrealismo português e este conto, O Rapaz não Gostava das Mãos, não deixa ficar esse crédito por texto alheio. Muito curto mas bastante forte, como é apanágio do movimento, conta um episódio passado em Bucelas, que hoje poderá ser um dormitório de Lisboa mas em tempos passados não há tanto tempo assim era região quase tão interior e pobre como os contrafortes da Serra da Estrela, quando um jovem, trabalhador à jorna, chega a uma taberna e, raivoso, pede uma garrafa de vinho. Segue-se um desabafo, durante o qual ficamos a saber por que motivo o rapaz não gostava das mãos.

Trata-se de uma história com inquietações sociais claras, a que aqueles que apreciam as suas ficções absolutamente ocas e alienantes poderiam mesmo chamar panfletária. Ignorem-nos, agora e sempre. É uma bela história, na qual Redol, com grande economia de meios, consegue pintar um retrato muito duro da vida dos assalariados agrícolas no Portugal de meados do século XX. Uma história capaz de incomodar consciências? Ainda bem. É precisamente para isso que serve a arte.

E sim, nada aqui existe de fantástico. Afinal, o movimento chamava-se neorrealismo.

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domingo, 25 de junho de 2017

Lido: O Alma-Grande

O Alma-Grande é um conto que se passa, segundo nos diz Miguel Torga, "em terra de judeus", e tem como protagonista um homem cuja função social é abreviar o sofrimento dos moribundos. Como? Matando-os quando já a esperança de sobrevivência se esgotou. Não nos conta a vida desse homem, o Alma-Grande do título, mas um momento fulcral dessa vida quando, pela primeira vez, o que faz lhe ataca a consciência, depois de um moribundo lhe pedir que espere, pedido esse que primeiro rejeita mas depois se vê constrangido a aceitar, o que vai ter consequências gravosas pois o moribundo acaba por deixar de o ser, sobrevivendo, e vai querer vingança.

A história é muito bem escrita, narrada com mão segura, mas gerou em mim uma dúvida por desconhecer tal prática de eutanásia ritual entre os judeus, mesmo que Torga a explique subtilmente como forma de defesa de uma comunidade criptojudaica em meio católico contra a descoberta e a mais que provável perseguição que essa descoberta ocasionaria, e por haver um claro moralismo no desfecho do conto: será ele antissemita? Será uma manifestação de preconceito de Torga, mais que provavelmente originado em histórias contadas e espalhadas pelas igrejas cristãs ao longo dos séculos? Não sei a resposta a esta pergunta, apesar de à primeira vista me parecer que será positiva, pese embora toda a ambiguidade que o conto acaba por conter. Mas sei que ela, a pergunta, me estragou o fruir do conto.

Quanto ao primeiro motivo que me levou a ler a antologia que o inclui, saber se pode ou não ser enquadrado na literatura fantástica... bem... é certo que há nele uma aproximação ao horror psicológico, mas não creio que seja suficiente.

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sábado, 24 de junho de 2017

Lido: Ficções

Contrariamente ao que muita gente parece pensar nos tempos que correm, os livros não se medem aos palmos. Um livro de 500  ou 800 páginas não é inerentemente melhor que um outro com 160. Ou 158. E se há livro que o demonstra na perfeição é este Ficções, de Jorge Luís Borges, com as suas 158 páginas (nesta edição).

Na verdade, podia até ir mais longe. É que este Ficções é composto por duas partes, a primeira das quais, intitulada O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, foi publicada independentemente em 1941, três anos antes do resto. E nesta edição não passa das 86 páginas. Uma coisinha estreitinha que nem às 100 páginas chega. E no entanto...

E no entanto é uma obra-prima. Uma obra-prima que contém alguns dos contos mais extraordinários alguma vez escritos em qualquer língua, verdadeiros prodígios conceptuais brilhantemente executados. Há aqui reflexões profundas e sofisticadas sobre a natureza do universo, há uma forma quase matemática de explorar a noção de infinito, os labirintos e também, no fundo, a condição humana, há histórias pseudofactuais (que raramente me agradam realmente... mas estamos aqui a falar de Borges) que são provavelmente o pináculo dessa forma de ficcionar o mundo, há metaliteratura, há ironia, há fantástico com fartura, há fantasia, há até tangentes próximas à ficção científica, há, enfim, uma quantidade quase absurda de conteúdo para tão poucas páginas.

E nas histórias da segunda parte, Artifícios, em geral um pouco menos boas que as da primeira, há mais um pouco de tudo isto. O resultado é um livro magnífico. Só poderia ser melhor se o nível da segunda parte fosse tão alto como o da primeira, mas mesmo não o sendo é simplesmente magnífico.

Eis o que achei de cada conto individualmente considerado:
Este livro veio da biblioteca dos meus pais, mas sei que foi comprado em conjunto com o Público, como todos os desta coleção.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Lido: Histórias da Meia-Noite

Embora este Histórias da Meia-Noite ainda não se inclua nas histórias do autor que são de fantástico reconhecido e "bibliowikiado", ao encontrar o nome de Branquinho da Fonseca contei logo ser provável tratar-se de conto fantástico, pois ele foi um dos principais cultores do género entre nós em meados do século XX. E o próprio título era promissor.

E a história é interessante. Consiste de uma conversa, algures no Portugal rural de outrora, na qual as personagens contam umas às outras histórias de assombrações. Entre o ceticismo e a crença dos seus protagonistas, Fonseca constrói uma história bastante todoroviana, pois o leitor acaba por ficar sem saber bem se o que é relatado pelas personagens aconteceu mesmo, como elas garantem, ou não passa de invencionices como os outros intervenientes na conversa acusam. Tudo numa linguagem rica de oralismos e popularismos, que contribui para situar a história num determinado ambiente sociológico, propício a tais relatos de almas penadas e bruxedos.

(Abro um parêntesis para uma reflexão lateral mas curiosa: é interessante notar que enquanto na literatura inglesa é frequentemente entre as classes abastadas que se desenrolam as histórias de fantasmas, que muitas vezes recorrem a este mesmo expediente de relatos contados numa roda de amigos ou conhecidos, na literatura portuguesa parece ser entre a população mais pobre que mais têm sido ambientadas tais histórias, como se se quisesse com isso dizer que os abastados são demasiado sofisticados para dar algum crédito a tais crendices do povo. O que nos diz isso? Não sei bem. Mas vou pensar no assunto.)

Como disse, a história é interessante. Mas não é história que cause impacto duradouro, talvez porque a amena cavaqueira, os relatos de ouvir dizer, os dichotes e pequenas provocações, não contribuam para criar um ambiente impressionante.

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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Lido: A Guerra é para os Velhos

Quando, em plena adolescência (teoricamente, a idade em que se gosta dessas coisas) li (e detestei, jurando para nunca mais) duas ou três das space operas da série Lensman do E. E. "Doc" Smith e depois de, alguns anos mais tarde, ter lido (e odiado) o Soldado no Espaço do Heinlein, que ainda por cima em português ficou com aquele título que dificilmente podia ser mais cliché (e a versão mais recente, Soldados do Universo, não é muito melhor), convenci-me de que detestava ficção científica militar.

Essa ideia sofreu um abanão quando me apareceu à frente Guerra Sempre, do Joe Haldeman. Enquanto o lia fui-me dando conta, com não pouco espanto, que tinha nas mãos um grande livro. E as sequelas, não sendo tão boas, também me deixaram a pensar. É que se trata de FC militar, com quase tudo o que se associa ao subgénero e, em princípio, me desagradaria. E no entanto...

Acabei por decidir que era a tal exceção que confirmava a regra e não pensei mais nisso.

Até ler A Guerra é para os Velhos (bibliografia).

É que este livro de John Scalzi também é ficção científica militar e eu também gostei dele. Não tanto como dos de Haldeman, é certo, não é um grande livro, mas é um bom livro.

Por outras palavras, começava a haver demasiado exceções para se aguentar a regra. Se calhar não é de ficção científica militar que eu não gosto, pensei eu cá com os meus botões. Se calhar é de outra coisa.

E então descobri: do que eu não gosto mesmo é de FC militarista.

É certo que as duas coisas andam com demasiada frequência juntas, mas não andam sempre. Guerra Sempre, por exemplo, foi um romance escrito como resposta a Soldado no Espaço, por um autor com experiência vivida do absurdo da guerra (Haldeman é veterano do Vietname) e é tudo menos militarista, não deixando de ser militar por isso. E este A Guerra é para os Velhos, que dialoga claramente tanto com o livro de Haldeman como sobretudo com o de Heinlein, tem uma abordagem semelhante.

O enredo não é muito complexo, pelo menos à superfície. No mundo criado por Scalzi, as pessoas, depois de terem vivido uma vida normalíssima na Terra, chegam à idade da reforma e têm a possibilidade, se muito bem entenderem, de se alistarem nas Forças de Defesa Coloniais e partirem para sempre para o espaço, onde uma nova vida as espera. Uma nova vida e um novo corpo, criado artificialmente com base na sua informação genética mas dotado de um sem-número de melhoramentos que o adaptam às condições duras de uma guerra espacial.

Sim, porque há guerra.

Há guerra e generalizada. A galáxia está enxameada de alienígenas belicosos, todos a competir pelos melhores planetas onde estabelecer colónias, e a humanidade (mais um dos alienígenas belicosos, no fundo) também quer para si o seu quinhão. É para assegurarem esse quinhão que servem as Forças de Defesa Coloniais, e o romance, narrado em primeira pessoa, segue o percurso de um tal John Perry, desde o velho recém-viúvo que encontramos no princípio da história até ao veterano calejado de violentas batalhas em que o vemos tornar-se.

Pelo meio, ficam uma série de temas de toda a relevância. Para começar, a lealdade e o que significa ser-se humano. Lealdade para com a espécie (mas que espécie? Será ainda humano o Perry alterado e sobre-humano que combate nas FDC?), lealdade para com o passado e os sentimentos que nele se foram construindo, lealdade para com camaradas de armas, lealdade, enfim, para consigo próprio. E também a guerra, a sua natureza e o seu absurdo, visto que Perry nunca chega realmente a convencer-se de que toda aquela violência tem algum sentido. A páginas tantas combate com vontade, sim, mas para honrar a memória dos camaradas mortos, por vingança, e não por um qualquer sentido de missão.

E fica também uma história de amor bastante profunda, pois Perry reencontra a sua mulher morta, o amor da sua vida, numa jovem oficial de um corpo de tropas especiais, vindo a saber que esta, gerada e criada artificialmente e com todos os melhoramentos espectáveis num soldado de elite (ou seja: mais ainda que os de Perry), tem na realidade como base genética o ADN da mulher que tinha deixado para trás, sepultada na Terra.

Desagrada sobretudo o excesso de americanice pois, à exceção óbvia dos alienígenas, não há em todo o livro uma só personagem que não seja americana de origem, direta ou indireta. Essa é uma das características que não permitem que este livro chegue perto de Guerra Sempre. Mas é um bom livro, e lê-lo foi uma boa surpresa. É um livro que em vez de se ficar pelo fogo de vista das batalhas e da pancadaria futurista aborda temas complexos com alguma delicadeza e com bastante inteligência. É um livro com conteúdo, este. E isso é quase sempre bom.

Neste caso certamente que o é.

Este livro foi comprado.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Lido: Ressurreição

Com Domingos Monteiro regressamos aos contos fantásticos, neste caso de fundo cristão, o que de resto já vem sugerido por um título como Ressurreição. A ideia que deu origem ao conto parece-me muito clara: o que aconteceria se Cristo voltasse à Terra nos dias de hoje (ou pelo menos nos dias em que Monteiro escreveu esta história, publicada em 1952)? Para a explorar, Monteiro arranja um artista que procura um modelo para um quadro precisamente sobre esse tema e para isso faz publicar um anúncio... que recebe resposta do próprio Jesus Cristo. E segue-se um conto muito baseado em diálogos que nem sempre são particularmente credíveis e que padece do mesmo defeito que ataca a generalidade dos contos piedosos: o pendor dos crentes para tratar figuras religiosas de forma unidimensional (sem pecado, sem defeitos, milagreiras) torna as histórias que escrevem muito previsíveis. Neste caso, o ceticismo do pintor tornou imediatamente óbvio que no fim ele se converteria à crença e à fé, e é precisamente isso que o conto entrega. E o interesse pela leitura sofre. Consequentemente, este talvez seja o conto mais fraco do início desta antologia.

Contos anteriores deste livro:

Diop será

E terminou o prazo para isto. Houve 15 respostas, o que é mais do que eu esperava, tanto que hesitei durante algum tempo em fazer esta consulta pensando que não teria mais que duas ou três respostas. E o vencedor, bastante claro, foi A Decisão de Diop, portanto será a esse texto que me irei dedicar nos próximos tempos.

Foi engraçado assistir à evolução das respostas com o tempo. A Decisão de Diop dominou desde o princípio: foi o primeiro texto a ser votado e, depois disso, chegou a ter 75% dos votos, andando sempre com maioria absoluta até há um dia e picos. Mesmo assim acabou com 40%. Pelo contrário, a Primeira Gralhalândia foi de início o patinho feio, mas nos últimos dias começou a ganhar votos até acabar em segundo. Depois veio a FC (por assim dizer; A Decisão de Diop também é uma forma de FC): Tempo Quente na Ilha Calma à frente, o conto sem título na cauda.

Acho que voltarei a fazer isto. Não em breve, que destreinado como estou devo levar ainda bastante tempo para acabar a história do Diop. Mas um dia, sim.

E obrigado, claro.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lido: O Viajante Clandestino

Não tenho muito a dizer sobre este conto. Em O Viajante Clandestino, José Rodrigues Miguéis apresenta-nos uma história de emigração económica portuguesa para os Estados Unidos, aparentemente em meados do século XX e por via marítima. Uma história que se poderia contar em uma ou duas páginas se o texto se resumisse à ação pura e simples, mas é mais longo porque Miguéis se demora a criar o ambiente e a pintar o retrato às condições socioeconómicas que levam à viagem, e que se conclui num puro ato de bondade e indiferença às regras (que hoje em dia seria impensável, diga-se) por parte de um agente da autoridade. Mesmo contando com uma certa inverosimilhança que pode assaltar o leitor moderno (mas não tanto o contemporâneo do texto, presumo) ao ler o desfecho, o realismo (quase neorrealismo) é total; nada no conto existe de fantástico. É um conto bonito, bem escrito e interessante, mas que não deixou grandes marcas neste leitor que aqui escreve.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Lido: Predadores

Às vezes há contos que nos fazem lembrar outros contos sem que se trate, necessariamente, de uma questão de cópia, plágio ou qualquer outra dessas coisas menos agradáveis. Por vezes é apenas a mesma ideia desenvolvida separadamente por duas pessoas diferentes, ou até mesmo partes da mesma ideia que criam uma certa atmosfera de familiaridade. Por vezes é mais do que isso mas menos do que a cópia deliberada; pode ser um conto lido anos antes que se demora no inconsciente e regressa ao papel reescrito por outra mão, por exemplo. Acontece, e com mais frequência do que se poderia supor.

É o caso deste Predadores. O início, sobretudo, despertou na minha cabeça ecos fortes de A Noite de Walpurgis, de Hugo Rocha: apesar de a floresta ter sido substituída por uma lixeira, também aqui há um observador que assiste a uma cerimónia aparentemente diabólica sem que para isso tenha sido convidado. O desenvolvimento da história, porém, é outro: se na história de Rocha o observador não é detetado, nesta é, seguindo-se a perseguição que justifica o título. Os monstros são predadores, o protagonista a caça. Certo. E isto poderia fazer com que este conto de Ricardo Lopes Moura ganhasse a sua autonomia e valor próprios. Mas se Moura nos contos lidos anteriormente até escreve razoavelmente bem, pese embora uma pequena falha aqui, outra ali, este conto tem demasiadas dessas falhas para ser possível fechar os olhos ao resto, além de nunca conseguir criar o suspense que uma história deste género exigiria. Como consequência, é um conto fraco, o pior do livro até ao momento.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Preciso da vossa ajuda

Quem me acompanha no twitter ou no facebook e esteve atento no momento certo, talvez tenha reparado que no início do ano eu escrevi por lá qualquer coisa como "macacos me mordam se este ano não acabo alguns textos que tenho aqui pendurados."

E tenho vindo a pensar nisso nos tempos mortos deste então. Aliás, tenho vindo a fazer mais do que pensar: reli o que tenho para aqui, material já escrito, as (poucas) notas e... deparei com um problema.

É que me apetece pegar em tudo. Mas se vou pegar em tudo, se me ponho a saltitar de texto em texto, não acabo nenhum. Eu sei: já fiz isso. Foi por isso, aliás, que alguns destes textos entraram em pausa prolongada; de tanto saltitar, perdi o ímpeto.

Portanto preciso de escolher um e dedicar-me a ele. Mas apetece-me pegar em tudo, bolas! Oh, indecisões! De modo que olhem, preciso da vossa ajuda. Se és daquelas pessoas que de vez em quando até gostam do que eu escrevo, ajuda aqui. Diz-me qual destes textos te desperta mais curiosidade ou vontade de ler.

As propostas são quatro. Há mais, mas estes quatro são os que estão a puxar mais por mim. Três já estão parcialmente escritos, em graus muito diferentes de completude; o outro está planeado mas ainda não escrevi uma palavra (nem me decidi por um título, mesmo que provisório), portanto não tem link. Algumas informações relevantes sobre ele: pertence ao mesmo universo do Tempo Quente na Ilha Calma, portanto é FC, julgo que acabará com tamanho de noveleta, e é tudo o que falta para ter uma coletânea de contos pronta a publicar.

Para mais informações sobre os outros (e um excerto de cada), é favor seguir os links:
Mais comentários a fazer? É deixá-los aqui por baixo, ou nos posts de cada excerto.

Ah, e obrigado pela ajuda.

Primeira Gralhalândia (excerto)

Primeira Gralhalândia (título muito provisório) está previsto como um divertimento razoavelmente absurdista, razoavelmente longo, construído a partir das gralhas que me foram acontecendo ao longo dos anos e fui deixando no twitter sob a tag genérica de #gralhalandia. Por ordem. O desafio é, com isso, escrever uma história coerente, e ainda estou muito longe de saber se consigo. Talvez chegue ao tamanho de romance, mas é cedo para perceber. Para já estão escritas menos de 2000 palavras.

O que se segue é o início.

Primeira Gralhalândia

Desta vez, cheguei à Gralhalândia num dia de tempestade. Chovia a potes. Trovejava ao longe. O vento soprava emborrascado, aos arrancos, de direção indefinida. Apresentei-me na fronteira, a pé, segurando como podia o guarda-chuva por cima da cabeça. Ia munido dos documentos obrigatórios e de alguns facultativos, e esperei. A Gralhalândia é sítio de bizarra tecnologia, diferente do resto do mundo. Se cá fora sabemos mais ou menos com o que contar e as redes informáticas permitem, aparentemente, tudo e mais umas botas, ali as coisas são mais complicadas. Ora podemos ver-nos mergulhados em utopias cibernéticas dignas do mais otimista ciberpunk — e sim, na Gralhalândia existe esse gambozino da ficção científica, o ciberpunk otimista —, ora podemos achar-nos mergulhados num atraso de vida medieval ou mais antigo ainda. É conforme os apetites da deidade enlouquecida que manda no local. Ou de algum ET munido de um sentido de humor perverso. Ou de outra coisa qualquer. Ninguém sabe. Por outro lado, eu, como não sou ninguém, não sei.
Só sei que esperei até me doerem as pernas e ficar com os pés enregeladinhos de tão molhados. Mas por fim lá me abriram a porta. Um guarda de fronteira barrigudo e com um farfalhudo bigode mandou-me entrar com um gesto enquanto roía os restos de uma sandocha. Apresentei-lhe os documentos, ele passou-lhes uma rápida vista de olhos aborrecidos e assomou-se a uma sala contígua, berrando lá para dentro:
— Ó Aleido! Anda cá, Aleido!
Devo esclarecer, num parêntesis rápido, que, devido às frequentes visitas que faço ao país, já falo fluentemente gralhalandês, tanto quanto é possível seja a quem for falar tal língua com fluência. Se isto fosse um daqueles questionários sobre o domínio de línguas estrangeiras, a cruzinha cairia sobre “experiente”. O que isso significa é que ela me causa frequentes perplexidades, e não raro não a entendo de todo, no que tenho a companhia da quase totalidade dos próprios gralhalandeses. E só não afirmo que é de todos porque, enfim, não os conheço a todos.
Portanto, percebo a língua.
Mais ou menos.
Digamos que dá para o gasto, e arrumemos assim o assunto e o parêntesis.
Ia eu dizendo que da sala saiu um jovem, coberto de borbulhas, vestido com um berrante uniforme vermelho estrambolicamente decorado com dragonas, botões dourados, cordões, a parafernália completa de um ditador sul-americano. Ao peito, entre medalhas que tilintavam a cada passo (é que, ainda por cima, o tipo coxeava violentamente da perna direita), uma placa informava, entre berlicoques policromáticos:

ALEIDO CASTÁLIO
ESTAFETA REAL

— Chamou, chefe? — disse o jovem coxo, todo prestável.
— Chamou chefe, chamou chefe — resmungou o barrigudo bigodudo. — Claro que chamei. Se cá vieste ter é porque me ouviste chamar, e se me ouviste chamar é porque chamei. Não é?
O jovem coxo abriu a boca, mas não teve oportunidade de lhe dar uso porque o barrigudo bigodudo atalhou de imediato:
— Temos aqui este tipo. Quer entrar. Parece que tem os papéis em ordem, mas é preciso uma assinatura do capitão. Manca chamá-lo.
Abri a boca para corrigi-lo, dizer-lhe que não era manca que se dizia e sim manda, mas um olhar ao modo como o jovem Aleido Castálio, Estafeta Real, saiu a mancar da sala fez-me engolir a objeção.
Na Gralhalândia as coisas são mesmo assim.
Entretanto, o dos bigodes tirara um impresso de uma gaveta, pegara numa anacrónica pena e numa espécie de tinteiro com um ar muito pouco funcional, mergulhara a ponta da pena na tinta e pusera-se a rabiscar, deitando olhadelas aos papéis que eu trazia. Às tantas parou, franziu o sobrolho, procurou qualquer coisa no meio da pequena pilha de papéis que eu lhe entregara e olhou-me, ainda se cenho franzido:
— O amigo não trouxe uma declaração de idoneidade dos pelos públicos?
Abri muito os olhos.
— De quê?!
— Uma declaração de idoneidade de pelos públicos. É obrigatório, sabe?, segundo a lei… — hesitou — deixe ver… — resmungou, folheando um livro de registos. — Ah, cá está. Não é lei, é decreto. Segundo o decreto régio 322, do ano passado. — Ergueu o olhar para mim. — Não conhece? Quer que leia?
— Bem — disse eu, sem saber bem o que dizer — se calhar é melhor. Mas antes disso, se calhar convinha explicar-me o que são pelos públicos.
O guarda soltou uma fungadela divertida.
— Vê-se mesmo que é estrangeiro. Então não se está mesmo a ver? Os pelos públicos são a barba e o bigode, homem! Os outros são privados, não é?
E riu-se.

Tempo Quente na Ilha Calma (excerto)

Tempo Quente na Ilha Calma será um romance de ficção científica, parte de um universo que venho desenvolvendo devagarinho há anos e do qual ainda só publiquei um continho muito curto chamado Miel Lê. Acompanha o nascimento, crescimento e dilemas de um miúdo nascido numa sociedade voluntariamente atrasada. Tenho escritas cerca de 21600 palavras, e estimo que isso corresponda a uns 10% do total.

O que se segue é o início.

Tempo Quente na Ilha Calma

Prólogo

De certa maneira, pode dizer-se que as viagens de Zel começaram no momento preciso do Big Bang, quando, segundo certifica a cosmologia, do nada surgiu num rompante toda a matéria, toda a energia e todo o espaço e tempo de que o Universo se compõe. Zel faria assim parte, através dos átomos e moléculas de que foi sendo constituído ao longo da vida, da grande viagem universal, que durará o tempo que demorar até que o todo se transforme de novo em nada, ainda ninguém sabe muito bem como nem quando. Uma etapa insignificante, perdida num minúsculo recanto do cosmos, que começa e acaba tão depressa que no grande esquema das coisas nem se dá por ela.
Mas poucas pessoas decidem pensar a escalas tão incompreensivelmente vastas, e as que o fazem são olhadas com estranheza pelos demais, que incompreendem esta maneira de olhar para a vida e o mundo. Preferem outras mais pragmáticas, que afirmam que as viagens de Zel começaram na verdade no momento em que a mãe, Riia, soltou um grito que ressoou num misto de dor e alívio, e o pôs no mesmo mundo em que ela nascera duma forma muito idêntica algumas dezenas de anos antes, ainda que não no mesmo local desse mundo.
Entre uma e outra perspetiva a ligação parece impossível de tão ténue, mas, bem vistas as coisas, Riia só solta o tal grito porque está na ponta duma longuíssima cadeia de relações de causa e efeito que, se puxasse por ela com força e tempo suficiente, lhe traria até à porta de casa o próprio Big Bang em pessoa.
De modo que se pode afirmar com toda a propriedade que, entre o longínquo Big Bang e o pequeno bang que foi o grito da mãe, qualquer momento serve para se dizer que é aqui que começa a história de Zel e das suas viagens. Esse momento é arbitrário. Podíamos fechar os olhos, apontar para um ponto e dizer “é aqui”, e não erraríamos, pois a verdade verdadeira é que Zel começa muito antes de começar.
Contudo, também é verdade que não temos tempo nem, com toda a franqueza, paciência para percorrer toda a eternidade. Esqueçamos, pois, tudo o que aconteceu entre o Big Bang e uns dias depois de Zel ser concebido. Esqueçamos o período inicial de expansão acelerada do Universo, esqueçamos a solidificação dos primeiros átomos, a formação das primeiras moléculas, a condensação das primeiras estrelas e sua organização nas primeiras galáxias. Deixemos de lado a explosão das primeiras estrelas gigantescas e os elementos pesados que estas espalharam para irem formar as gerações seguintes de estrelas e planetas antes de se engolirem a si próprias e se transformarem nos primeiros buracos negros. Não nos interessa aquele planeta azul em que a vida surgiu, os milhões e milhões de anos que ela levou a evoluir até dar origem a uma bizarra criatura com dois braços e duas pernas e uma grande cabeça redonda empoleirada no topo de um pescoço que parece fraco demais para a suster. Deixemos em paz os avanços e tropeços da sua ascensão a animal civilizado e tudo o mais que daí se seguiu. Nada disso nos importa agora. Interessa-nos, sim, chegar a um ponto no espaço e no tempo em que…


Noite Longa

… Ton baixa a cabeça para não bater com ela na soleira e entra na taberna. Nesse momento Ton já tem um filho, a começar as primeiras fases do seu crescimento numa bolha protegida no interior do útero da mãe. Mas ainda não o sabe. Se soubesse, o mais certo seria não entrar na taberna com aquela expressão calma que tanto tempo demorara a readquirir, mas sim com o ar torturado que fora sua imagem durante bastante tempo. Não nos adiantemos ao desenrolar próprio da história, porém. Ton está agora a entrar na taberna. Para no átrio, fecha firmemente a porta exterior atrás de si, trancando lá fora a ventania, faz o sinal do Triângulo, abre a porta interior e entra na sala a passos decididos. Lá dentro estão cinco homens, todos robustos, bem mais do que ele, todos de rostos tisnados pelo sol, tanto como ele, todos vestidos apenas com uns calções e uns suspensórios de couro por cima duma camisa justa, tal como ele. O interior da taberna está comparativamente fresco, e Ton passa a mão pela testa, sacudindo o suor e respirando fundo. É com alívio que ergue uma mão calejada para cumprimentar Seg, o taberneiro, o qual passa um pano mosqueado de antigas nódoas por um conjunto acabado de lavar de canecas de barro, e se vai sentar sozinho numa mesa de canto. Ainda nenhum dos amigos chegou, e Ton recusa-se sequer a reconhecer a presença dos quatro homens que ocupam uma mesa na outra ponta da sala.
Todos aqueles anos depois, e apesar de todos os esforços, quer do próprio Ton, quer da mulher e respetiva família, quer mesmo do padre, há ainda quem o olhe com a desconfiança que se reserva aos forasteiros, e não perca uma oportunidade para fazer-lhe sentir que continua a não ser bem-vindo ali. De nada adianta mostrar provas de devoção ao Santíssimo Triângulo, de nada serve ser dos homens mais assíduos aos serviços no templo, presente mesmo quando o tempo das colheitas ou das sementeiras aperta, é inútil até que a sua devoção ao Triuno seja atestada pelo próprio padre. Para alguns, uma vez forasteiro, forasteiro para sempre, e nada do que diga ou faça alterará isso. Para quê, portanto, prestar-lhes atenção?
Claro que o que acontecera também não ajudara nada.
Mas não. Esse é caminho que Ton não voltará a trilhar. Ele e Riia não têm filhos, ponto, parágrafo. Nada mais há a dizer.

A Decisão de Diop (excerto)

A Decisão de Diop é uma novela (muito provavelmente) integrada na minha série de história alternativa do Tempo das Passarolas, passando-se um par de décadas depois de Só a Morte te Resgata. Até agora tem escritas cerca de 11 mil palavras, e calculo que vá mais ou menos a meio, talvez um pouco mais.

O que se segue é o início.

A Decisão de Diop

O Estreito Caminho – Parte 1

Pela janela panorâmica da grande passarola vê-se o mar. Uma vasta extensão dele, plácida e vazia, sem um pontinho que seja a macular-lhe a uniformidade. No céu, a uma altura pouco superior à da passarola, vogam nuvens baixas, algumas acasteladas, a maioria cúmulos pequenos cuja brancura só não contrasta mais fortemente com o azul do céu porque este está atenuado por uma fina camada de cirro-estratos que se estende de horizonte a horizonte, lá bem no alto.
Em volta de Santos Diop a Almirante Ganço e a sua tripulação produzem os ruídos típicos de uma máquina em perfeito estado de funcionamento. Na cabina, bem isolada do mundo exterior, não se ouve o vento mas escuta-se o rugido abafado dos motores, os estalidos de atuadores e alavancas, o tilintar das campainhas dos comunicadores, o ronronar das impressoras, as vozes baixas dos tripulantes. Estes debruçam-se sobre mostradores, falam a microfones, observam o mar com óculos de longa distância, em pé ou empoleirados em bancos pouco confortáveis. Diop passa os olhos pelos seus homens. Pensa que é uma boa tripulação, bem treinada e experiente. Todos conhecem bem as respetivas funções e todos as desempenham com calma e eficiência. Pensa que apesar da diversidade de tons de pele e de cabelo, a expressão de todas aquelas caras é só uma, a expressão neutra de homens que têm mais em que pensar do que no que fazer com os músculos que enrugam testas, retesam bocas, contraem bochechas.
De todas aquelas caras? Serão mesmo todas?
Diop lança uma olhadela rápida ao subcomissário mas afasta logo o olhar. Nada o distingue dos demais, e no entanto tudo o distingue. O uniforme é o mesmo, sem sequer uma insígnia a marcar-lhe a diferença, mas a expressão é outra, a forma como os olhos se demoram nas coisas não tem paralelo, o porte é único. Pode estar, como está agora, debruçado sobre uma consola, aparentemente tão concentrado nela como qualquer outro dos tripulantes, mas há sempre nele qualquer coisa que como que irradia intimidação e vigilância.
Uma perturbação no mar, à frente e a estibordo, chama-lhe a atenção. Leva o óculo ao olho, foca-o, mas sabe de antemão o que vai ver. Golfinhos, um pequeno grupo deles, talvez seis ou sete, todos adultos, nadam a grande velocidade quebrando a superfície para respirar e voltando logo a mergulhar. Diop vê dois ou três saltos mas a maioria dos animais limita-se a mostrar o dorso, do espiráculo à barbatana. Desinteressa-se. Sempre gostara daqueles animais, mas está demasiado tenso para desfrutar das suas cabriolas.
Aproxima-se um ponto de leitura.
Já não deve faltar muito para chegarem à Corrente do Atlântico Norte propriamente dita, mas só os dados obtidos dos pontos de leitura lho poderão dizer com certeza. Já no último, quase vinte milhas atrás, se registou um aumento na temperatura da água, mas foi tão ligeiro que facilmente poderia ser um falso positivo. O próximo dará mais certezas… ou talvez não. A corrente é coisa fugidia. Serpenteia para norte e para sul, fragmenta-se em redemoinhos que se isolam da corrente principal e vão rodopiando oceano fora até se dissiparem, numa espécie de jogo do gato e do rato pleno de travessura em que parece procurar frustrar quem tenta encontrá-la. Em circunstâncias normais pouco importaria; passarolas não querem saber de correntes, a não ser as atmosféricas e, no que a essa diz respeito, a Almirante Ganço tem vindo há longas milhas a lutar contra o já esperado vento oeste. Mesmo para um navio, mais sujeito aos efeitos dessas variações, a importância seria pouca, pois bastar-lhe-ia encontrar-se mais ou menos na zona da corrente para se ver empurrado para leste, com maior ou menor força.
Mas a Almirante Ganço está numa missão.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Lido: Mau Agoiro

Há contos realistas que o são sem ponto nem vírgula, descrevendo acontecidos e supostos com toda a verosimilhança das realidades conhecidas, como quem nota em rodapé "se não aconteceu podia ter acontecido." Outros há, no entanto, que, mesmo não sendo menos realistas, é como se o fantástico espreitasse pelos interstícios, seja na descrição dos ambientes, seja na construção das personagens, seja no tratamento da língua que neles se faz, seja onde seja. Mau Agoiro, conto de Vitorino Nemésio, açoriano até à medula de que é feita a língua (refiro-me ao conto, mas até se aplicaria também ao autor), é destes últimos.

Conta vivências de uma velha taralhouca, miserável, a quem o rei ou qualquer outro manda-chuva "que bebe o sangue aos pobres" leva o único filho deixando-a sozinha. Desventuras e mais desventuras; ora é um raio que dá fogo à casa, ora uma rabanada de vento que parte uma janela, e num rasar de asa se passam meses. O cenário seria ideal para um conto de horror, daqueles carregados de sobrenaturalidades e fantasmagorias. Mas não é desse horror que Nemésio quer dar conta; é do horror da vida dos necessitados, e em consequência a sua piscadela de olho ao fantástico nunca chega a passar disso.

No deve e haver de qualidades e defeitos o que acaba por realmente sobressair é a escrita, muitíssimo boa mesmo quando o entendimento pelo pobre continental que sou sofre com a grande abundância de açorianismos, tanto lexicais como de pronúncia, que a grafia escolhida preserva. Este não é conto que se leia sem pensar muito; tanto as múltiplas situações de "que raio quer isto dizer?" como os inesperados saltos temporais na narrativa impedem que o seja.

Se gostei? Gostei. Quanto mais não seja porque há aqui pormenores que são outras tantas lições de bem escrever.

Contos anteriores deste livro: