terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Lido: Naturalmente Feliz

Alguém com um nome como Alexandra Pereira que começa um conto com "a senhora dona escritora sentou-se no café" corre sérios riscos de que quem o leia o suspeite autobiográfico. Especialmente se o que se segue a esse início é uma daquelas tipicíssimas histórias contemplativas de escritor-a-escrever-sobre-escritor, repletas de observação da banalidade do quotidiano e de reflexões sobre este ou aquele aspeto desse quotidiano (ou dessa banalidade?). Naturalmente Feliz é um risco desses; um conto sobre uma "senhora dona escritora," já entradota, que se senta num café a observar o que a rodeia, aquela típica vida de café que praticamente todos os portugueses conhecem bem, mas em especial uma jovem, entre o divertimento, a curiosidade e a inveja. É também um conto bem escrito, como a maioria dos outros, mas é banal, limitando-se a repetir situações e ideias já expressos numa miríade de outros contos realistas de escritor-a-escrever-sobre-escritor que o umbiguismo de tantos escritores foi produzindo ao longo das décadas. Só uma coisa, na verdade, se destaca: o fim. O fim é interessante (e não, não vou revelá-lo), o suficiente para arrancar esta história à maior das medianias. Mas mesmo assim há histórias bem melhores neste volume.

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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Lido: Walpurgis Afternoon

Sabemos que um determinado género ou subgénero literário não nos diz grande coisa se lemos bons exemplos desse género e a leitura fica longe de nos encher as medidas. Passa-se isso comigo com alguns subgéneros da fantasia, muito em especial (uma vez que ganhou uma projeção invulgar nas últimas décadas) com a fantasia urbana. Para que eu me sinta realmente satisfeito com a leitura de uma fantasia urbana, é bom que ela seja excecional, porque caso não chegue lá o mais certo é deixar-me entre a indiferença e o aborrecimento.

E este Walpurgis Afternoon é uma boa noveleta de fantasia urbana. Delia Sherman tem uma narrativa sólida e fluida e usa-a para contar uma história suburbana sobre uma casa que aparece de um dia para o outro num lote vazio e sobre as suas habitantes. Contada sob o ponto de vista da filha adolescente de um casal de vizinhos, a história e as personagens vão-se revelando com mão segura, ficando o leitor a saber que estas últimas são um casal de bruxas lésbicas que decidiram ir viver para ali em vésperas do casamento, o que tem como consequência ficar a vizinhança inteira em alvoroço (e descobrir-se mais algumas bruxas entre os habitantes do sítio, também).

Uma fantasia urbana bem feita (ainda que me pareça que a comoção causada pelo aparecimento súbito de um casarão é abafada com demasiada facilidade), que toca em alguns temas bastante relevantes nos dias que correm (tanto ou mais que em 2005, ano em que foi publicada) e fala de preconceitos e da aceitação da diferença e do outro. E no entanto...

... e no entanto é apenas uma fantasia urbana boa, não excecional. E eu li a noveleta com razoável agrado, mas sem realmente me sentir puxado para a história e/ou para a forma como é contada. Tenho a certeza de que a esquecerei bem depressa.

Lido: George e o Dragão

Tal como acontece com o conto de Scavone A Bôlha e a Cratera, também este George e o Dragão se insere na corrente lunar da ficção científica de meados do século XX. Mas nenhuma caixinha é estanque e esta, a da FC lunar, também não, pelo que este conto de Álvaro Malheiros é também uma história de naufrágio espacial e de mais algumas coisas.

Sem a procura de burilamento literário que se sente na ficção de Scavone, com uma prosa mais direta e objetiva (e, sim, de menor qualidade), este conto de Malheiros consegue apesar disso ser mais interessante. George, o protagonista, é um náufrago espacial, o primeiro homem a pousar na Lua, mas incapaz de dela sair e regressar à Terra. Está longe de ser a única história já escrita com esta premissa; em algumas, o astronauta perdido não tem possibilidade de salvamento e só lhe resta tentar morrer o melhor possível; noutras, essa hipótese existe e é a esperança de sobrevivência que faz mover a história. A história de Malheiros pertence ao segundo grupo, pois o lançamento rápido de uma segunda expedição estava nos planos no caso de alguma coisa correr mal.

Essa expetativa é parte do que torna o conto interessante, mas talvez a parte mais relevante nem seja essa: é a lenta alteração do estado de consciência do astronauta à medida que o tempo vai passando, causada por algum fenómeno que o autor não deixa claro apesar de fazer referências vagas ao calor do longo dia lunar. Seja como for, é inteiramente verosímil que, seja lá por que motivo for, um astronauta numa situação assim comece a perder o pleno das suas capacidades mentais, podendo até chegar a um estado alucinatório. E isso faz com que esta FC seja bastante hard. O que é muito curioso se tivermos em conta as referências fantasistas que o conto apresenta e o título já sugere.

Este é outro ponto alto desta antologia. Não tão alto como alguns dos outros, certamente, mas o contraste com o conto que o antecede, por exemplo, é intenso.

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domingo, 14 de janeiro de 2018

Lido: O Presente

Ray Bradbury, mesmo nos seus contos menores, e especialmente num certo período da carreira, consegue com frequência transmitir um intenso sentido de maravilhamento, aquele assombro sonhador e deslumbrado com o universo que há quem diga estar no âmago da experiência de ficção científica. Não sou propriamente dessa opinião — penso que a FC se enraíza em mais do que isso — mas o que é facto é que em Bradbury esse fator é muito importante. E este conto curto, O Presente (bibliografia), é disso um excelente exemplo.

Esta é uma história natalícia. Acompanhamos uma família em viagem para Marte (turística, ao que parece). Uma família de pai, mãe e filho que, porque o natal os vai apanhar em trânsito, e sem querer privar o miúdo da experiência da quadra, tenta levar consigo uma árvore de natal. Mas não consegue: a bagagem, com a árvore, excede os limites de peso. Mas lá conseguem desenrascar qualquer coisa... e qualquer coisa melhor ainda que um mero pinheiro.

É um conto menor, é certo. Mas a perícia narrativa de Bradbury está nele plenamente presente. Tudo está no seu lugar próprio, tudo é conciso mas não apressado, e toda a informação necessária para o pleno desfrute da história vai sendo oferecida em pequeníssimas migalhas ao longo do conto, sem nunca chegar sequer a ameaçar estragar a reviravolta final, em volta da qual tudo está construído. Em Bradbury, e especialmente no Bradbury desta fase, "menor" é equivalente a "bom".

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sábado, 13 de janeiro de 2018

Lido: Bajo el Signo de Alpha

Esta é mais uma das muitas publicações eletrónicas que eu fui acumulando, sem ler, ao longo dos anos. Publicada no ano 2000, em PDF, pela Asociación Mexicana de Ciencia Ficción y Fantasía, julgo que com o objetivo principal de divulgar o que se ia produzindo no país à época, Bajo el Signo de Alpha é, como facilmente se poderá deduzir, uma antologia de ficção científica (e alguma fantasia) mexicana.

As publicações deste tipo são sempre algo irregulares na qualidade dos contos, especialmente quando são oriundas de países e momentos em que a produção é relativamente escassa e portanto não oferece muito por onde escolher. Esta, longe de ser exceção, é das mais irregulares que conheço, incluindo quer contos muito bons, quer contos muito maus. Em termos de edição propriamente dita, peca ainda por erros de formatação que prejudicam bastante alguns dos contos, e porque a incógnita pessoa — pessoas? — que a organizou (a antologia não traz essa informação) optou por concentrar a maioria dos melhores contos no início, deixando o pior de todos para o fim, o que tem como consequência que o leitor que seja exaustivo e sequencial na leitura muito provavelmente vai terminá-la com uma impressão global mais negativa do que a antologia merece.

Sim, é certo que está longe de ser uma obra-prima, é verdade que no máximo seria uma antologia a merecer a qualificação de "bonzinho", mas também é verdade que os bons contos que inclui (e parece que alguns foram premiados, embora essa informação também não conste em nenhum sítio da própria antologia, o que, se a premiação for anterior à edição, é a meu ver mais uma falha editorial) justificam plenamente a edição. Destaco em especial os três contos de abertura, em particular o de Alberto Chimal, e ainda Llegar a la Orilla e El Libro de García. Estes cinco contos valem bem a pena. Os restantes sete são mais dispensáveis, ainda que vários de entre eles também se deixem ler bem.

O que não sei, e gostaria de saber, é quão representativa esta edição é da ficção científica que se fazia no México nesta época. Não posso, por isso, recomendá-la como tal. Mas julgo que será suficiente para se ficar com uma ideia, mesmo se vaga.

Tudo somado, não dei o tempo de leitura por mal empregue.

Eis o que achei de cada um dos contos:
Esta é uma antologia de download livre e gratuito, que continua disponível, entre outros sítios, aqui.

Lido: Uma Demanda Literária

Como já deve ter ficado claro de opiniões anteriores, a meu ver há uma extensão certa (ou, vá, uma quantidade limitada de extensões) para contar uma história. Histórias existem que podem ser contadas em miniconto ou em vinheta, mas outras precisam de mais espaço para respirar, e algumas, até (embora menos do que muitos autores parecem julgar, escrevendo mais que o necessário), só podem ser realmente contadas em séries de múltiplos volumes. Por vezes é impossível contá-las noutras extensões; por vezes, a extensão certa é aquela que permite extrair da história o máximo do seu potencial. Quando se tenta contá-la noutras extensões, ela aparece coxa, apressada ou palavrosa, incompleta ou cheia de palha, ineficaz, em suma.

E esta vinheta de Joel Puga intitulada Uma Demanda Literária é mais uma história contada com a extensão errada.

Trata-se de um continho de fantasia sobre alguém que anda numa demanda para adquirir certos livros, para o que vai até um sítio remoto ao encontro de um alfarrabista mágico e nómada que se materializa em certos locais e em certos momentos. Mas Puga não tem tempo para sequer sugerir o que leva o protagonista a fazer o que faz e tem de introduzir vários infodumps para retratar rapidamente o mundo ficcional, deixando ainda o final em aberto. O resultado de tudo isto é uma história bastante coxa, que melhor seria se fosse recontada em formato mais extenso.

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Lido: Na Metade do Meio

Após um breve artigo, Alexandra Pereira volta aos contos (mas não às dedicatórias). Na Metade do Meio é uma vinheta muito bem escrita que tem como base o determinismo e a leitura, aquilo que está escrito no sentido teleológico da expressão, ainda que essa base seja usada muito mais como artifício literário do que propriamente como desenvolvimento de um ideário filosófico. Em duas páginas, conta-se a história de um estranho homem que convida um amigo a ir ver onde vive, num ambiente bastante surreal. O amigo vai, e vê. E é só isso, ao mesmo tempo que é bastante mais do que isso.

Não é nada fácil falar muito mais deste conto sem o revelar por completo, o que não seria bom visto que o seu enredo se sustenta na reviravolta final, portanto vou apenas acrescentar que sim, é um bom conto. Um bom conto fantástico. Mais um.

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Lido: Mary Postgate

Mary Postgate é um conto repugnante. Escrito por Rudyard Kipling (sim, o do Livro da Selva, de Mowgli e companhia) durante a I Guerra Mundial, e bastante bom, literariamente falando, consegue a façanha de ser misógino tendo uma mulher como protagonista e é discurso de ódio do mais puro e virulento que já encontrei na literatura. Pior: porque Kipling era bom a fazer o que fazia, é discurso de ódio eficaz.

O enredo é contemporâneo da escrita. Na Inglaterra da I Grande Guerra um avião alemão despenha-se e a sua queda mata uma rapariguinha. Mais tarde, Mary Postgate, a protagonista, encontra o aviador, ferido. Este tenta render-se. Ela assassina-o a sangue-frio. E o tom de Kipling, a forma como desumaniza por completo o aviador (é tratado por "a coisa") é óbvio: assim é que é. O homem é um inimigo, logo é para matar. Tenta render-se? Não importa: mate-se. Nem uma palavra ou um pensamento é dedicado à possibilidade de se tratar de um militar recrutado à força e não ter grande vontade de andar por aí a matar gente, de estar apenas a cumprir as ordens que lhe são dadas. No mundo de Kipling isso não existe: é inimigo? Mate-se.

Um nojo. Boa literatura, mas um nojo.

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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Lido: O Espelho

E depois há contos assim.

Nunca tinha ouvido falar de Nelson Leirner, e bastou-me começar a ler este seu O Espelho para perceber com total clareza porquê. "Existem no universo homens quanto no firmamento estrelas", começa ele. Como? Por mero acaso não faltará aí um "tantos", algures? "Definindo astronáutica não diria ser somente a ciência que estuda o vôo espacial", continua, muito pouco depois. A falta que fazem as vírgulas! E, muito pouco depois, "Para muitos, que nunca saíram de nosso planeta chega a ser o encontro com o absurdo." A falta que faz entender como funcionam as vírgulas! No terceiro parágrafo (todos bastante curtos), fala de "Cores que fogem ao espectro." A falta que faz saber o que é um espectro! E logo a seguir: "Meu amigo Enovacs, o primeiro astronauta a desembarcar em Titã descrevia suas experiências neste planeta" onde se percebe que a total taralhoquice com vírgulas não é casual mas sistemática e se fica a saber que o bom do Leirner é amigo ou fã do Rubens Teixeira Scavone: Enovacs é Scavone ao contrário.

E chega. Já perceberam. Este conto é péssimo, um exemplo típico daqueles contos e autores que usam a linguagem da ficção científica sem a compreenderem nem quererem compreendê-la, como mero artifício poético. No caso de Leirner é ainda piorado pelo deficiente manejo da língua que viram acima e por uma ideia sobre mundos-espelho que até podia dar (e deu) histórias com algum interesse mas que aqui está tão mal executada que se termina de ler este conto curto com um suspiro de alívio. Dos piores contos que li no ano passado. Para esquecer.

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Lido: O Dragão

Ray Bradbury é com demasiada frequência apresentado como escritor de ficção científica, o que tem como consequência muita gente pensar que ele só escreveu FC. Mas embora eu compreenda a necessidade que as pessoas ligadas ao género sentem de reivindicar para si os escritores que nunca os renegaram (ao contrário de outros que, apesar de por vezes escreverem ficção científica, cedem ao preconceito reinante entre os pseudo bem-pensantes, quando não o alimentam diretamente), parece-me que isso tem o efeito perverso de gerar ou pelo menos alimentar uma ideia errónea não só sobre a obra do autor (antes desta ser lida), como sobre o próprio género (quando as obras são lidas).

Acho mais correto dizer-se que Bradbury foi um autor que escreveu FC, alguma da qual magnífica, mas também escreveu outras coisas. Escreveu horror, ou a sua peculiar versão dulcificada de horror (que se calhar não é propriamente horror, mas fantasia de pendor macabro), escreveu um fantástico mais respeitador da definição de Todorov, escreveu histórias inteiramente mainstream, escreveu policial, e por aí fora. E escreveu muita ficção híbrida em maior ou menor grau, que não se encaixa univocamente em nenhum género (ou se encaixa em vários).

O Dragão (bibliografia) é um desses contos híbridos, embora descaia principalmente para a fantasia. O cenário, pelo menos e à primeira vista, é-o por inteiro: cavaleiros medievais procuram num pântano um dragão que devora viajantes. Encontram-no e atacam-no, quixotescamente, pagando por isso com a vida. E depois o conto muda de perspetiva e o leitor percebe que os acontecimentos descritos são bem mais estranhos do que pareciam à primeira vista. Quem conhece as histórias de ficção científica sobre roturas no espaçotempo, gerando descontinuidades espaciais, temporais, ou ambas, razoavelmente populares em meados do século XX, talvez reconheça nesta história um parentesco claro, mas a verdade é que a FC, aqui, é só questão de interpretação. Pode-se dispensá-la sem problemas, encarando o conto como uma simples história fantástica. Boa, sim, mas não das mais impactantes, e esta palavra, impactantes, foi escolhida com uma certa ironia. Quem a ler perceberá.

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Pensando ao vivo e em direto sobre o RBI

Acabou de me aparecer no facebook o seguinte texto, tradução parcial de um artigo de Yannis Varoufakis que pode ser encontrado aqui:

"É insuportável a ideia de uns trabalharem no duro e pagarem impostos enquanto outros escolhem não trabalhar e viver à pala da bondade legal.
Para ser legitimado, o RBI (rendimento básico incondicional) não pode ser financiado por "Jill que paga ao Jack". Por essa razão o RBI não deve ser financiado pelos impostos, mas sim pelos ganhos sobre o capital.
Um mito urbano, promovido pelos ricos, é o de que a riqueza é produzida individualmente antes de ser coletivizada pelo Estado, através dos impostos. Na realidade a riqueza é sempre produzida coletivamente e privatizada por aqueles que detêm o poder para o fazer : a classe que vive do rendimento de bens móveis e imóveis. As terras de cultivo e as sementes, formas pré-modernas de capital, foram coletivamente desenvolvidas ao longo de gerações de esforço por parte dos agricultores, antes de terem sido apropriadas por furto pelos proprietários fundiários. Hoje em dia qualquer smartphone inclui componentes desenvolvido por algum subsídio governamental, ou então através do "bem comum" que é a partilha de ideias, para as quais nenhum dividendo foi alguma vez pago à sociedade.
Como poderia então a sociedade ser compensada? Os impostos são a resposta errada. As empresas pagam impostos pela troca de serviços fornecidos pelo Estado, não pelo capital injetado que tem de gerar rendibilidades. Assim pode-se defender que "o bem comum" tem direito a uma fatia do capital social e dos dividendos associados, refletindo o investimento que a sociedade faz nos capitais das grandes empresas. E como é impossível calcular a dimensão do estado e do capital social cristalizado em qualquer empresa, só através de um mecanismo político podemos decidir quanto do capital da empresa deve ser afetado ao domínio público. Algo simples poderia ser o requisito legal em cada OPA de canalizar uma percentagem das ações da empresa p/ uma Caixa de Capital Bem Comum, cujos dividendos financiassem o RBI. O Rendimento Básico Incondicional deve e pode ser totalmente independente das prestações de segurança social, subsídio de desemprego, etc. mitigando assim a preocupação de que viria substituir a segurança social, (segurança social que comporta em si o conceito de reciprocidade entre trabalhadores assalariados e desempregados). " (…)
Isto parece-me uma ideia interessante. Mas preocupa-me a volatilidade associada ao financiamento da tal Caixa de Capital Bem Comum através das ações das empresas (imagino que cotadas em bolsa, portanto inerentemente voláteis). O que acontece quando, em situação de crise ou crash, os dividendos caem a pique, sem que deixe de existir um gasto mensal fixo com o RBI, bem mais importante numa situação dessas do que em outra qualquer? Entra o Estado a pagar o défice do sistema via impostos? E isso não faz com que volte tudo ao princípio?

E é ideia que continua a não dar resposta à minha preocupação número um: a quantidade brutal de dinheiro que é necessário para que o RBI seja mais que simbólico. Em Portugal, um RBI de 200 €/mês (bastante baixo), que fosse distribuído pelos cerca de 9 milhões de adultos que cá temos, custaria cerca de 22 mil milhões de euros. É, em linguagem técnica, uma gigantesca batelada de massa. Bem mais que 10% de todo o Produto Interno Bruto. Mais ou menos a mesma quantidade de dinheiro de todos os impostos indiretos cobrados pelo Estado segundo o orçamento para 2018. Todos.

Eu até gosto da ideia RBI, em abstrato. Mas quando olho para os detalhes não gosto do que vejo. Não estou a ver como isto possa ser minimamente viável. Mesmo com as sugestões do Varoufakis.

Lido: A Escolha de Hobson

Na ficção científica portuguesa existem alguns casos muitíssimo curiosos que geralmente passam debaixo do radar dos fãs do género, pelo menos até que alguém dá com eles e lança o alerta. E este livrinho é um excelente exemplo disso mesmo.

Trata-se de uma novela de ficção científica (ou talvez até noveleta), que saiu em 1995 de uma forma discretíssima, imagino que para uso escolar e pouco mais, apesar de apoiada pela Gulbenkian e pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, o que também deve ser caso único na nossa FC. E não me surpreenderia nada se fosse caso único por tão dignas instituições terem ficado horrorizadas com o resultado. Ou talvez não; afinal, a publicação inseriu-se num tal Projeto Entre Mar e Estrelas, atividade pedagógica com duas fases que consistia primeiro em recolha de informação sobre astronomia e oceanografia e, depois, na elaboração de histórias sugeridas pela fase anterior, em colaboração com vários escritores.

E se sim não será por esse resultado ser mau, entenda-se. É que há envolvido na coisa um nome que deverá levar à cabal compreensão dos motivos, pelo menos por quem lhe conhece a prosa e os temas: João Barreiros.

Mas desfaçamos o mistério: o que é isto, afinal? É uma novela de FC, como já se disse, concebida e escrita em conjunto por Barreiros e por um grupo de sete alunos da Escola Secundária do Monte da Caparica: Ana Ferreira, Ana Margarida Gil, Ângelo Claro, Carina Figueiras, Filipa Jales, Hugo Oliveira e Marta Ribeiro. E nota-se. O tema, boa parte da prosa, o jargão futurista, as ineficiências mecânicas e as situações que elas criam, as ironias e pequenas subversões deste A Escolha de Hobson (termo que significa basicamente "ilusão de escolha"), são Barreiros típico. Mas tudo é atenuado em relação ao que se costuma encontrar no autor, num tom explicitamente juvenil, e há detalhes que fogem à "voz autoral" típica de Barreiros, mostrando portanto, supõe-se, as dos jovens coautores. Inclusivamente com alguns erros; coisas como alguém acordar "meia estremunhada," por exemplo.

A história que é contada é a de uma nave interestelar que regressa ao Sistema Solar quatro mil anos depois de ter partido, graças à dilatação do tempo típica das velocidades relativísticas, encontrando-o totalmente modificado. Planetas inteiros em falta, uma Lua que serve de painel publicitário, por aí fora. E a Terra... bem...

De baleias drogadas a lulas-polícia, passando por intermináveis e incompreensíveis trâmites burocrático-alfandegários que levam à apreensão da nave à conta da violação de não sei quantos regulamentos e por uma série de paisagens imensamente alteradas, o mínimo que se pode dizer é que a Terra tem muito pouco a ver com o planeta que esperavam encontrar. E isto é o principal motor do resto da história, passada pelo grupo a tentar perceber o que raio se terá passado e como sair da situação em que se encontra. No fim, claro, enfrentam a escolha de Hobson do título.

O resultado não é muito bom enquanto FC, mas não deixa de ser uma ficção juvenil divertida e com algum interesse. Um interesse provocado não só pela história em si como também (ou sobretudo) pelo modo como surgiu. E deixa ficar uma intensa curiosidade sobre os outros resultados deste projeto. Sim, que isto não é único; uma busca na BN informou-me de que o Entre Mar e Estrelas levou à publicação de mais três livros: Fogo de Santelmo, coordenado por João Aguiar e A Clepsidra de Cronos e A Era do Aquário, ambos coordenados por Daniel Tércio. Ora, se é possível que o livro de João Aguiar nada tenha a ver com literatura fantástica (embora também possa ter; o autor não é inocente de mergulhar o pé no género), parece-me muito improvável que o mesmo se possa dizer dos de Tércio.

É que o Bibliowiki está mesmo aqui ao lado, a dar ao rabo e a farejar paparoca, sabem?

domingo, 7 de janeiro de 2018

Revolucionário

Ao rebentar o ano de 2017, tomei uma espécie de resolução de ano novo. Já algum tempo que andava com o bichinho da escrita a formigar, com as histórias às voltas na cabeça a querer sair e outras histórias semiescritas a suplicar por uma conclusão, e disse aos meus botões (e, se bem me lembro, ao twitter) algo como "macacos me mordam se este ano não acabo pelo menos uma das coisas que tenho incompletas".

A vida, claro, tinha feito outros planos: primeiro uma inundação de trabalho, depois uma doença não identificada (na altura; entretanto já foi) mas muito chata e a seguir um braço partido na família e outra inundação de trabalho, reduziram a quase zero a disponibilidade, mental e de tempo, para escrever fosse o que fosse.

Mas recusei-me a continuar mais um ano a seco e, quando o Sérgio Gaut vel Hartmann, um editor argentino que tem intensa atividade como antologista de ficções curtas e ultracurtas, me surgiu no Facebook com uma proposta nova para contos até 300 palavras, tive imediatamente uma ideia e, algum tempo mais tarde, passei-a a escrito, pensando que nada como ficções ultracurtas para descongelar, desenferrujar os músculos ficcionistas depois de terem passado demasiado tempo adormecidos. Mais tarde ainda, tive outra ideia e também a escrevi. Ao enviar os contos, prometi aos que me seguem nas redes sociais que o(s) que não fosse(m) aceite(s) seria(m) publicado(s) aqui na Lâmpada.

Ora, a proposta do Sérgio estava limitada a um conto por autor, portanto eu sabia de antemão que um desses dois contos seria recusado. Originalmente, estava previsto ficar a saber a 31 de dezembro se algum conto meu (e qual) iria entrar no livro, mas essa data foi postergada para o fim de janeiro. Mas entretanto já sei qual não irá ser aceite. Portanto improvisei uma ilustraçãozinha, a fingir de capa, e aqui está como prometido. É ficção científica razoavelmente hard e, dos dois contos, é aquele de que mais gosto, embora também concorde que é aquele que menos respeita a proposta da antologia. Espero que gostem.

Revolucionário

Quando lhe trocaram a mão esquerda por um implante multifuncional não se importou muito. O trabalho exigia-o. E, bem vistas as coisas, o aumento de versatilidade compensava a perda de sensibilidade.
Quando lhe queimaram ambos os olhos com hélio líquido e os substituíram por lentes de largo espectro aborreceu-se um pouco. Gostava de se rever nos seus olhos castanhos e, apesar de passar a ver mais e melhor, nunca evitava algum incómodo ao ver-se ao espelho, como se não fosse bem ele quem ali estava.
Quando um dia acordou sem ambas as pernas e se viu transportado para o centro de reformulação para lhe implantarem dos novos fleximembros de cinco articulações teve um momento de verdadeiro mau humor. Mas o contrato de escravatura temporária era claro: durante cinco anos era propriedade integral da empresa; podiam fazer com ele o que quisessem. Por isso, fez um esforço para se resignar.
Quando o mindinho e o anelar da mão direita lhe foram cortados a sangue-frio e substituídos por interfaces de média velocidade teria encolhido os ombros se a ligação não tivesse ficado mal feita, causando-lhe um certo desequilíbrio neuronal.
Quando o esfolaram meticulosamente, recobrindo-o depois com uma sintetiderme multifuncional, ficou realmente irritado. Mas a sintetiderme era fotossintética e por isso negra, como a pele velha, portanto tentou convencer-se de que a mudança nem era assim tão grande.
Mas depois ligaram-lhe o mindinho direito ao mainframe do asteroide e percebeu, quando um curto-circuito fez com que recebesse alguns pacotes que não devia ter recebido, que se preparavam para lhe substituir a consciência por uma dócil IA de baixo espectro.
Foi um erro. Sério.
Há anos que ninguém se atreve a pousar no asteroide. Diz-se que ele ainda por lá anda, revolucionário, sozinho entre os cadáveres.

Lido: O Iluminiaturista

O Iluminiaturista é mais um caso de abordagem errada a uma ideia potencialmente interessante. A meu ver, naturalmente. Nas páginas dos antigos códices iluminados, diz-nos Carlos Alberto Espargueiro, vive um povo antigo que é o verdadeiro responsável pela manutenção (e também criação) das ilustrações que eles contêm, e que se vê agora acossado primeiro pela imprensa e mais recentemente pelo advento dos ebooks. Com esta ideia, o autor poderia ter escrito um texto mais extenso, arranjando um enredo e, através desse enredo, introduzir aos poucos a ideia e as suas complexidades, cumprindo assim todo o seu potencial. Poderia igualmente ter incutido nessa história todo o humor que introduziu nesta vinheta, sem ceder à necessidade do infodump. Porque é isso (e algumas fragilidades na escrita) o que estraga a vinheta: esta é descrição pura, sem enredo, um simples despejo de informação sobre as criaturas, os seus problemas e a sua função no grande esquema das coisas. É provável que Espargueiro tenha optado por esta abordagem devido às limitações que o projeto tinha (é uma antologia de ficções ultracurtas), mas a verdade é que a ideia não se conjuga bem com um texto tão curto. O melhor que ele tem é o fim, mas só funciona realmente num livro em papel e ilustrado... ora, eu li-o em ebook. E numa edição sem ilustrações.

Contos anteriores deste livro:

Lido: A Alegoria da Gaiola

E eis que de repente Alexandra Pereira passa uma rasteira a quem vai todo lampeiro ler mais um dos seus contos, apresentando não um conto mas uma crónica de página e meia, meio filosófica, meio humorística, sobre as insuficiências da linguagem. Como o título indica, A Alegoria da Gaiola vai buscar inspiração à Alegoria da Caverna e (mesmo sem que o título o indique) aos surrealistas, e é um texto bem escrito, com algumas ideias curiosas, mas insuficientemente desenvolvido para poder ser realmente relevante. Venha o próximo.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 6 de janeiro de 2018

Lido: Era uma Vez um Mundo

Os escritores que se aventuram a escrever história alternativa, não raro, mostram uma singular apetência para colocar nos ambientes alternativos que criam pessoas históricas e célebres no mundo real. Sempre achei essa prática bastante violentadora da minha capacidade para suspender a descrença e mergulhar nos respetivos mundos ficcionais alternativos; sempre achei que não faz o mínimo sentido. Com exceções: histórias que se desenrolam pouco tempo depois do ponto de divergência com a história real (uma história alternativa passada nos anos 50, com um ponto de divergência na II Guerra Mundial, por exemplo) podem perfeitamente incluir no enredo todas as personagens do mundo real que o autor bem entenda. Mas uma história que se desenrola décadas ou sobretudo séculos mais tarde? Uma história cujo ponto de divergência se situa antes do nascimento dessas pessoas? Não.

Não, porque não consigo convencer-me de que um acontecimento com o poder de alterar sociedades inteiras não é capaz de alterar não só a união da mulher X com o homem Y, como o momento exato em que essa união se efetua, logo o espermatozoide específico que nesse momento está mais capaz de vencer a corrida para fecundar o óvulo. E isso mantém-se sempre presente ao fundo da minha mente enquanto vou lendo. Há sempre uma vozinha chata e irritante a murmurar lá atrás "bah!bah!bah!bah!bah!" E se nas histórias alternativas mais bem concebidas (à parte esse pormenor) consigo de certa forma abafar essa vozinha, nas que não o são é-me completamente impossível.

O caso agrava-se quando não aparecem só duas ou três personagens históricas no meio de uma quantidade de outras personagens que não o são, mas o autor parece ter o objetivo expresso de juntar numa mesma história o máximo possível de celebridades, independentemente de isso fazer algum sentido ou não. E é precisamente o que Antonio Luiz M. C. Costa faz neste Era uma Vez um Mundo (bibliografia).

E o pior é que a ideia tinha potencial para resultar numa história interessante: numa América Latina futura, integrada pacificamente numa Federação Mundial utópica e socialista, resultante de um ponto de divergência situado aparentemente algures durante a época colonial pois Palmares parece ter-se tornado uma nação preponderante nessa linha temporal (à semelhança do que Gerson Lodi-Ribeiro imaginou para a sua série dos Três Brasis), um grupo de terroristas de extrema-direita tenta rebentar com o status quo. Literalmente. Dando à história espaço para respirar, e apesar do pecado original apresentado acima, Costa poderia ter conseguido criar aqui uma obra fascinante, realmente capaz de fazer uma reflexão política sólida, ao mesmo tempo que criava um enredo de tensão quase policial, quase de espionagem, capaz de sustentar o interesse.

Mas não foi nada disso o que fez. Dedicou-se a atafulhar o máximo de celebridades e referências do mundo real que conseguiu no espaço de uma noveleta, polvilhou-a com pausas para discursos ideológicos despidos de grande profundidade, deixou por explicar as origens daquele mundo e despachou apressadamente a parte do enredo que envolve real ação. O resultado não é mau; a noveleta está bem escrita e tem alguns pontos de interesse. Mas é muito pior do que podia ter sido. Esta história, para conter tudo e todas as personagens que Costa lá quis pôr, teria de ser uma novela. Não é. E a consequência é haver aqui um grande potencial desaproveitado. Pena.

Contos anteriores deste livro:

Lido: O Elo Perdido

Jeronymo Monteiro é um dos principais pioneiros da ficção científica brasileira e já há algum tempo que eu tinha curiosidade em ler algo seu. Tive essa oportunidade com esta história, O Elo Perdido, e posso desde já dizer que não fiquei desapontado.

Trata-se de uma noveleta muito bem concebida, escrita com uma prosa agradável e dotada de uma apurada noção de ritmo narrativo, sobre um casal que tem um filho e as consequências que daí advêm. Onde está a FC?, perguntarão, com plena justiça. O título dá uma pista: a criança não é uma criança normal; sai simiesca.

O conto data de 1947, e, embora não tenha envelhecido da melhor forma possível, enquadra-se bastante bem nas ideias em voga na época e na ficção científica que então se fazia, inspirando-se na teoria da recapitulação ontofilogenética que está hoje posta de parte mas ainda era corrente nessa altura. Não sabem de que se trata? É a teoria, organizada nos anos 20 do século XIX, segundo a qual os organismos repetem (recapitulam) a sua evolução durante o desenvolvimento larvar ou fetal, para o que se usa muitas vezes como exemplo as fases ("de peixe", "de girino", "de mamífero de cauda", etc.) por que passa o feto humano. E Monteiro imagina o que aconteceria se nascesse uma criança atávica, com todas as características de um macaco, e cria a sua história a partir daí.

E é uma boa história, independentemente da incorreção da ciência. Há algo no estilo de Monteiro que faz lembrar H. G. Wells, o que é uma ótima referência, e este seu conto tem pontos de contacto com A Ilha do Dr. Moreau, outra ótima referência, cuja ciência, já agora, também é muito incorreta, o que não o impede de ser um ótimo livro. O Elo Perdido é uma história sobre a xenofobia e a intolerância, que se lê ainda muito bem e, se vista sob esse prisma, mantém toda a relevância. Este é outro conto que não ficaria deslocado numa eventual antologia da melhor ficção científica já escrita no Brasil.

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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Lido: A Janela Cor de Morango

Aconteceu por puro acaso, mas calhou lindamente. Falar deste conto de Ray Bradbury imediatamente na sequência desta história umbiguista de Inês Pedrosa é ideal para exemplificar o motivo por que a ficção científica, quando boa, consegue ser muitíssimo superior ao mainstream banal. Porque os dois contos têm em comum o facto de se centrarem no domínio dos sentimentos humanos e das relações homem-mulher. Só que enquanto uma dessas histórias gira em volta do umbigo de autora e protagonistas, a outra olha para fora, para as grandes questões do que significa ser-se humano neste vastíssimo universo em que vivemos.

Em A Janela Cor de Morango (bibliografia) estamos em Marte, no típico Marte bradburiano, habitável mas desértico, e encontramos como protagonistas um casal de colonos. À velha moda patriarcal, típica da década de 1950, ele trabalha, ela está em casa (e esta é a única faceta em que a história de Inês Pedrosa é francamente melhor... em parte por ser mais recente, sim, mas não só) e sofre de solidão e com saudades da Terra. Esta situação é usada por Bradbury para fazer uma reflexão, que não perdeu nada da sua pertinência com os mais 60 anos que decorreram desde a sua publicação, sobre o motivo por que a exploração de novas fronteiras está no âmago da condição humana. E sobre a aparentemente insanável contradição que existe entre isso e a necessidade igualmente forte de manter alguma ligação ao passado, de conservar raízes.

Diz-nos Bradbury que o segredo reside em levarmos as raízes connosco sempre que partirmos para outras paragens. Talvez assim seja, talvez não. No fundo, em termos literários pouco importa. O importante é Bradbury dizer-nos alguma coisa com o seu conto, além de o escrever tão bem como era seu hábito. Já a nossa amiga portuguesa fica-se por escrever bem.

E isto, longe de ser incomum, é habitual. A FC, a boa FC, a FC que não se limita ao escapismo, fala, pensa, discute, olha para fora. Já o mainstream contemporâneo limita-se com demasiada frequência a orbitar umbigos e está-se borrifando para toda a infindável riqueza que existe no exterior desses umbigos. É estéril. E, sendo estéril, é descartável. Por mim, descarto-o com todo o gosto.

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Lido: Quartos de Hotel

Há muito quem diga que o escritor deve escrever sobre aquilo que conhece, como se a imaginação ou a capacidade efabulatória fossem palavras feias a banir dos dicionários. É uma ideia daninha, esta, porque deu e continua a dar origem a verdadeiros oceanos de banalidade umbiguista. E este conto de Inês Pedrosa é um excelente exemplo disso.

Quartos de Hotel é um conto episódico e quase inteiramente descritivo, composto por seis variações sobre o mesmo tema: um encontro sexual entre amantes, invariavelmente ligados à literatura (os dois ou só um deles), invariavelmente insatisfeitos, que serve invariavelmente para os retratar a breves pinceladas, tanto a eles como às relações que vivem. Se não o é logo a abrir, depressa se torna ululantemente óbvio que o umbigo da autora marca forte presença nestes quadros e que o conto é escrito a pensar sobretudo no limitado circulozinho de escritores, editores e gente das letras em que ela se move.

E é também um conto prodigioso. É prodigioso como algo tão breve consegue ser um tão eficaz gerador de bocejos.

As historietas são de uma banalidade burguesa absoluta e depressa se tornam repetitivas, as ironiazinhas com destinatário são muito menos subtis do que a autora julga, e antes de chegar a meio já eu estava a olhar para o contador de páginas a pensar "mas isto nunca mais acaba?"

Entendamo-nos bem: não, o conto não é mau. Inês Pedrosa tem a qualidade de não maltratar a língua portuguesa, de apresentar uma escrita boa o suficiente para não se poder achar realmente mau o que produz. O problema é ser muito, muito chato e irremediavelmente desinteressante. Haverá quem goste, claro; há sempre.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Lido: Livros que não deviam ter sido escritos – XIV

Claro que não poderia faltar, numa antologia de contos fantásticos sobre livros, um conto lovecraftiano. Chega pela pena de José Manuel Morais e faz também referência à ficção borgesiana, pois emula os falsos artigos sobre literatura e arcanas edições que Borges tanto escreveu. No caso, um artigo sobre um tal Aulus Cremutius Cordus, o qual teria escrito sobre os Grandes Antigos, ligando-os aos mitos gregos e a histórias de outras partes do mundo. No entanto, as limitações no tamanho das ficções que esta antologia de microficções tem, a pressa de enfiar o máximo possível de referências na mínima extensão de texto, provocada (em parte) por essas limitações, e o facto de Morais não ser nenhum Borges, longe disso, fazem com que este Livros que não deviam ter sido escritos – XIV esteja longe de ser dos melhores textos desta publicação. É conto demasiado ambicioso para o espaço e o material que tem à disposição, e falha precisamente por isso.

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Lido: A Hora do Lagarto

Pois é. Parece que Alexandra Pereira desistiu mesmo definitivamente de dedicar as suas histórias a este e aquele. Lá se vai um pouco do divertimento que este livro causa a quem o lê.

Mas falemos de A Hora do Lagarto. Trata-se de um conto em clima de Mil e Uma Noites, com prodígios à mistura e tudo (um tradutor flutuante, pelo menos), que relata o que acontece quando um príncipe real comete uma tremenda estupidez e se deixa capturar pelos árabes, os qual decidem exigir como resgate pela sua libertação uma parcela substancial de território. O assunto é discutido e debatido e acaba por se chegar a uma conclusão, após o que...

... o conto acaba.

E ponto final. Não ficamos a saber sequer que conclusão foi essa, não temos, apesar da abundância de detalhes sobre os procedimentos do debate, um sinal que seja sobre o que resulta de tudo aquilo. A autora demora-se durante várias páginas a construir tensão e enredo e depois deixa tudo suspenso. Deve ter-se divertido a imaginar a cara dos leitores quando chegassem ao fim e pensassem "então e o resto?!" Um divertimento sádico, convenhamos.

Sim, o conto está bem escrito, e desta vez até o tom empolado do discurso direto está bem aplicado. Mas não havia necessidade de deixar a malta tão pendurada, raios. Um final em aberto deve cerrar qualquer coisa. Assim é demais.

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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Lido: Vivo

Para mim, tanto enquanto leitor como enquanto gajo que às vezes até vai escrevendo umas coisas, o ideal na literatura é encontrar um equilíbrio tão perfeito quanto possível entre história, ideias e técnica literária, a qual inclui quer a habilidade narrativa, quer a capacidade no manejo da língua. Esse equilíbrio depende até certo ponto da história que se quer contar (algumas exigem mais enredo, outras mais forma, entre outras subtilezas) e é sempre complicado de encontrar. Mas quando se encontra... ah, quando se encontra!...

E em Vivo, infelizmente, Ricardo Lopes Moura não encontrou. O enredo é interessante e tem pormenores de execução bem conseguidos: um misterioso estranho impede um assassínio a tiro numa rua de Lisboa, acabando ferido com gravidade. E como o auxílio ao próximo é doença contagiosa, uma jovem, que não o conhecia de lado nenhum, acaba por se ver compelida a ajudá-lo, o que a faz mergulhar num enredo complicado que começa pela recusa do homem em ser levado para o hospital. Ela leva-o para casa e de repente dá por si sozinha pois o homem desaparece. A rapariga podia ter  deixado as coisas assim, mas não consegue, pois o mistério do homem a fascina, pelo que vai à sua procura. E encontra-o.

A história, uma noveleta que está algures entre a fantasia urbana e o horror, é boa, há pormenores interessantes, a reviravolta final é excelente, mas... mas falta-lhe qualquer coisa. E essa qualquer coisa é qualidade no manejo da língua.

Quem costuma ler a Lâmpada decerto saberá que eu estou longe de ser a pessoa mais ligada à forma literária que se poderá encontrar por aí. Saberá que entre a forma e o conteúdo tendo a dar alguma preponderância ao conteúdo. Mas a verdade é que o texto de Lopes Moura é aqui demasiado frágil para o conteúdo deste conto, e estraga-o. Não por completo; a noveleta não é má. Mas é significativamente pior do que poderia ser com um texto mais competente. As ideias estão lá. A execução é que deixa a desejar.

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Lido: Desafio

Quando um leitor contemporâneo se põe a ler antologias ou coletâneas antigas de ficção científica já conta à partida (se não for tolinho) encontrar histórias com temas, abordagens ou ambientes caídos em desuso no género há várias décadas. Mas também conta, pelo menos se conhecer a época de publicação da dita antologia ou coletânea, encontrar histórias que, na época dessa publicação, fossem razoavelmente modernas.

Ora, não é isso o que Ney Moraes apresenta com o seu Desafio. Apesar de este conto estar bem escrito e razoavelmente bem concebido, já era antiquado quando foi escrito no início dos anos 60. Conta a história de um homem que encontra um companheiro invulgar numa viagem de autocarro, e este, quando a páginas tantas sai algo abruptamente do veículo, deixa lá ficar um manuscrito incompleto. Um manuscrito que relata uma daquelas histórias de génio isolado que tão comuns eram na FC do início do século XX, o qual teria inventado uma estranha máquina cuja verdadeira natureza nunca chega a ficar clara, o que deixa o passageiro-protagonista leitor mergulhado em insatisfação.

Tudo nesta história, do estilo ao tema, passando pela estrutura, remete para a ficção científica e o horror de há cem anos ou mais, o que torna o conto bastante anacrónico. Não mau, mas anacrónico. E não me parece que se trate de anacronia propositada usada como artifício literário, o que se bem feito até poderia melhorar o conto. Não. Tudo indica que estamos perante outro fenómeno: um autor que não conhece a ficção científica mais sua contemporânea, ou então conhece e não gosta dela. E isso não melhora o conto.

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Livros de 2017

As resoluções de ano novo são mesmo feitas para não cumprir, não é? No ano passado, tinha praticamente arrancado o post equivalente a este com a resolução de ser aquele o último ano que acaba com uma enorme pilha de opiniões por escrever e publicar. Pois é. A deste ano é ainda maior, se possível. Não só porque só consegui acabar de falar de 2016 em outubro deste ano (sim), como principalmente porque tive dois extensos períodos em que a vida se intrometeu tão violentamente em tudo o resto que escrevi muito pouco.

A vantagem (?) é que nesses períodos também li muito pouco.

Sim. O ano foi mau. Sob quase todos os aspetos.

Sob o aspeto leituras, li significativamente menos que no ano anterior e, em média, o que li foi pior. Mas disso falarei mais adiante; primeiro os números. Li um total de 28 publicações, entre livros e revistas, em papel ou digitais. Os livros lidos por lazer (que incluem aqueles que leio por curiosidades várias relacionadas com o Bibliowiki, que vão em crescimento) foram 22, com uma proporção muito elevada de material lusófono que este ano foi, e de longe, maioritário, somando 18 publicações portuguesas e brasileiras.

A lista completa é a seguinte:

1- Antologia do Conto Português Contemporâneo, org. Álvaro Salema (contos mainstream e fantásticos);
2- Adeus, Portugal!, de Paula de Lemos (novela humorística e fantástica);
3- Brinca Comigo! e outras estórias fantásticas com brinquedos, org. Miguel Neto (contos de ficção científica e horror)
4- Continhos de Alfarrobeira, de Alexandra Pereira (contos mainstream e fantásticos);
5- Starfish, de Peter Watts (romance de ficção científica);
6- Reportagem Especial, de Bruno Pinto, Penim Loureiro e Quico Nogueira (BD didática);
7- As Atribulações de Jacques Bonhomme, de Telmo Marçal (contos de ficção científica);
8- Quartos de Hotel, de Inês Pedrosa (conto mainstream);
9- A Escolha de Hobson, de João Barreiros, Ana Ferreira, Ana Margarida Gil, Ângelo Claro, Carina Figueiras, Filipa Jales, Hugo Oliveira, Marta Ribeiro (novela de ficção científica);
10- Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia 1, org. Marcelina Gama Leandro e Álvaro de Sousa Holstein (contos de ficção científica e fantástico);
11- Bajo el Signo de Alpha, de vários (contos de ficção científica);
12- Dama Polaca Voando Em Limusine Preta, de Lídia Jorge (conto mainstream);
13- Barnabé, de André Belo, Celso Martins, Daniel Oliveira, Pedro Aires Oliveira e Rui Tavares (crónicas e humor sobretudo políticos);
14- F de Foguete, de Ray Bradbury (contos de ficção científica);
15- Habitable Planets for Man, de Stephen H. Dole (exoplanetologia e exobiologia);
16- Lisboa no Ano 2000, de Melo de Matos (conto/artigo de ficção científica/futurologia);;
17- Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, de Manuel Ferreira (estudo literário);
18- A Casa do Eremita, de José Murta Lourenço (romance mainstream);
19- Acho Que Posso Ajudar, de David Machado (conto juvenil de fantasia);
20- A Cerimónia, de João Bonifácio (conto mainstream);
21- Além do Tempo e do Espaço, de vários (contos de ficção científica);
22- A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares (romance mainstream);

Li também 4 revistas, duas integral ou predominantemente lusófonas, as outras duas com material integral ou predominantemente traduzido. A lista foi:

23- Ficções, nº 7 (contos mainstream e fantásticos);
24- Isaac Asimov Magazine, nº 2 (contos de ficção científica);
25- Dagon n.º 2 (contos e artigos de ficção científica e fantasia);
26- Pulp Feek, nº 1 (contos e artigos de fantasia);

E por obrigação laboral, foram lidos dois livros, ambos valentes calhamaços:

27- Fool's Quest, de Robin Hobb (romance de fantasia);
28- Stranger in a Strange Land, de Robert A. Heinlein (romance de ficção científica)

A ficção científica predominou uma vez mais, mas desta vez não chegou à maioria absoluta: foram 12 as publicações de ficção científica ou que incluem quantidades significativas de FC. Mas a FC predomina porque o resto foi muitíssimo variado, da BD a estudos literários, do mainstream a um estudo científico, da política à fantasia. E isso é bom.

O que não é lá muito bom é a qualidade global e relativamente baixa daquilo que li. Não houve nada que me deixasse de queixo caído, houve muito menos boas leituras do que no ano passado e mais coisas que achei apenas medianas ou mesmo más. Mas houve boas leituras. A melhor talvez tenha sido os continhos do Bruce Holland Rogers que não constam desta lista por serem contos avulso (e não foi essa a única leitura avulso que houve durante o ano; está aqui uma opinião sobre outra, aqui sobre outra e houve mais algumas que "li" na diagonal, o suficiente para ficar com uma ideia geral mas não para opiniões mais sustentadas e que por isso não conto como leitura propriamente dita mas até acaba por ser, de certa forma. Ou seja, não li o que consta das listas acima) mas, à parte as coisas avulso, terei de mencionar F de Foguete de Ray Bradbury como a melhor leitura do ano, seguindo-se-lhe As Atribulações de Jacques Bonhomme, de Telmo Marçal, e Starfish, de Peter Watts. Não deixa de ser curioso que num ano em que as leituras de FC não foram maioritárias, sejam de FC todas as melhores. Também é curioso, mas num sentido menos positivo, que num ano em que a literatura lusófona dominou por completo a lista de leituras só haja um livro lusófono entre os três melhores.

É este, naturalmente, o que leva a palma do melhor livro lusófono do ano, seguindo-se Acho que Posso Ajudar, de David Machado (uma boa surpresa) e a Antologia do Conto Português Contemporâneo organizada por Álvaro Salema.

Pelo lado do mau, houve dois livros que se destacaram dos demais. Ou melhor: duas publicações. A pior leitura do ano foi sem dúvida o número 1 da Pulp Feek. A segunda pior foi Adeus, Portugal!, de Paula de Lemos. Para a terceira pior, que já não está propriamente no campo dos maus mas está no campo das leituras que me deixaram entre indiferente e insatisfeito, a competição é renhida, mas acho que vou optar por Quartos de Hotel, de Inês Pedrosa. Tudo lusófono, como se vê. Este ano, ao contrário do último, foram as leituras portuguesas e brasileiras a puxar mais a qualidade para baixo. Pelo que tenho na pilha rápida, é possível que isso mude em 2018. E também há a esperança de a vida me passar menos rasteiras e eu conseguir por conseguinte ler mais.

Daqui a um ano veremos.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Lido: A Bullfight in Mérida

Termina este grupo de continhos de Bruce Holland Rogers com mais um que não teve tradução para português, A Bullfight in Mérida. Trata-se de outro conto muito curto, em que o que mais impressiona é a abordagem a uma história com fantasma incluído, o fantasma da avó do narrador, cuja vida Rogers conta a largas pinceladas enquanto vai assistindo (ou vão: não é só ele que está entre o público, o fantasma da avó também está) a uma tourada em Mérida. Esta, a tourada, é usada não só como pano de fundo mas também como termo de comparação com a vida que vai contando, retratando com o auxílio dela uma mulher sofrida, uma mulher que, por assim dizer, passou a vida a ser espetada por bandarilhas. Embora este não seja dos contos de Rogers que mais me agradam, é-me impossível não tirar o chapéu (também fantasmagórico) à subtileza com que ele sugere uma vida inteira, servindo-se não só da ação mas também do cenário, e tudo em pouco mais de uma página. Bruce Holland Rogers é mesmo muito bom na extensão ultracurta. Mesmo muito bom.

Outras histórias divulgadas na newsletter de Bruce Holland Rogers: