domingo, 23 de abril de 2017

Lido: Cada Homem é uma Raça

Mia Couto. Para quem lhe conhece a prosa basta o nome para invocar um território feito de subtilezas, tanto de enredo como de linguagem. Um território muitas vezes realista mas também muitas vezes fantástico, mágico, sem nunca deixar de se enraizar na terra moçambicana e nas suas gentes.

Sem surpresa, é precisamente isso que se encontra neste Cada Homem é uma Raça, coleção de onze contos de nível geralmente muito alto. Alguns são autênticas maravilhas de construção narrativa e de linguagem. Outros ficam-lhes um pouco atrás, como é inevitável nesta espécie de compilação. Cerca de metade são contos fantásticos, o que também é comum em Mia Couto, ainda que em alguns o fantástico, sempre muito próximo do realismo mágico, esteja bastante diluído. Alguns são contos de fundo político, contos sobre o poder, a violência e o modo como essas coisas se entrecruzam com as pessoas e com vários momentos históricos. A época colonial. A época da guerra civil. Outros são mais atemporais, apesar de haver em quase todos um aspeto comum: a forma como o povo de Moçambique encara o Outro. Vários Outros, aliás, de vários tempos e lugares, com vários graus de domínio, seja imposto, seja consentido, sobre as vidas das pessoas.

Tudo somado, este é um livro muito bom, faltando-lhe muito pouco para ser excelente. Vários dos contos são-no mesmo; outros ficam aquém.

Eis o que achei de cada um:
Este livro foi "caçado" na biblioteca dos meus pais.

Lido: O Saque da Lampedusa

Encerra-se este livrinho com O Saque da Lampedusa, de José de Barros, já conhecido alter ego de João Barreiros. Trata-se de um conto integrado no universo ficcional electropunk que serviu de esteio à antologia Lisboa no Ano 2000, de que já falei aqui na Lâmpada há coisa de um ano. E é um típico conto de Barreiros, bastante bem escrito, irónico, cínico, carregado de hiperviolência. Trata-se de um depoimento, de uma ruminação desencantada da consciência de um soldado da Grosse Germânia após ter sido transferida para um tanque de assalto robótico cuja missão é combater fábricas automáticas que se tentam instalar e se combatem umas às outras na ilha de Lampedusa (não deveria o título ser "O Saque de Lampedusa"? "A" Lampedusa sugere uma nave ou coisa que o valha), no meio do Mediterrâneo, depois de terem dominado todo o Norte de África. A coisa é complicada pela parte do saque, pois as potências europeias (e não só), ao mesmo tempo que procuram refrear a expansão destrutiva das autofábricas, desejam o que elas produzem, e por isso combatem-se umas às outras pela posse dos despojos, numa situação de todos contra todos absolutamente caótica.

Barreiros faz muito bem este tipo de conto caótico, sabe transmitir de forma extremamente palpável a sensação de confusão e sobrecarga sensorial e emocional inerente a situações em que tudo acontece ao mesmo tempo e nunca existe uma saída óbvia. Por isso, e mesmo havendo neste conto umas certas quebras de ritmo provocadas pela necessidade de informar o leitor o mais depressa e completamente possível do que se está a passar, esta é, claramente, a melhor história de todo o livro.

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sábado, 22 de abril de 2017

Lido: Colombo

É curioso, e decerto que não foi propositado, mas este conto tem vários pontos de contacto com o anterior. Tal como em Coração Atómico, em Colombo, de Carla Ribeiro, vamos encontrar um homem genial que cria uma inovação tecnológica revolucionária que não tarda a haver quem queira usar para a guerra e a violência. Também aqui esse homem é torturado e está à beira de acabar destruído pelas consequências indesejadas da sua criação, numa forma de encarar a tecnologia que tem o seu quê de ludita. E também este conto está bem escrito.

O protagonista é um jovem engenheiro genial, criador de umas superengenhocas muito steampunk que, depois de se ver humilhantemente rejeitado pelo seu país natal, se vai pôr ao serviço de uma potência rival, à semelhança do velho Fernão de Magalhães, a fim de que as inovações que imagina acabem por ver mesmo a luz do dia. Encontramo-lo bastante depois desse momento, como passageiro, algo involuntário, de uma das máquinas voadoras que concebeu e foram usadas por essa potência para derrotar e destruir a sua terra numa guerra devastadora. Encontramo-lo no momento em que é forçado a confrontar a realidade do que fez, em todas as suas facetas e consequências, no momento em que realmente se compreende traidor. Traidor não só à sua terra e povo, mas à própria família.

Este é um conto forte, centrado no conflito interior do protagonista, mas sem grandes exageros. Em textos de Carla Ribeiro que li anteriormente havia uma certa tendência para hiperromantizar as situações, os diálogos e as personagens, mas vejo com agrado que essa tendência, embora não totalmente desaparecida, está agora muito mais controlada. E como consequência, este é certamente o melhor dos seus contos que já li.

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Lido: João Mandrião

Estão cheias de Joões, estas histórias tradicionais portuguesas.

Aqui está mais um, neste conto recolhido por Adolfo Coelho, o qual relata a maravilhosa história de João Mandrião, um João que era tão mandrião, mas tão mandrião, que para ir a algum lado tinha de arranjar quem o levasse ao colo. Mas não foi isso que o impediu de entrar em aventuras nem de encontrar um peixe mágico que, por nenhum motivo que se perceba, decidiu que o haveria de ajudar sempre que ele o pedisse. E o João Mandrião não se fez rogado, acabando casado com uma filha do rei e a viver, presume-se, feliz para sempre, ou não estivéssemos em ambiente de conto de fadas. De resto, que lugar social é melhor para um verdadeiro mandrião do que o de rei, não é verdade?

Esta é uma historinha com o seu quê de iconoclasta, mas que me deixa fundamentalmente a impressão de estar truncada, pois muitas das situações e reviravoltas são tão forçadas que não consigo sacudir a impressão de que deve faltar-lhe qualquer coisa. É um pouco como uma paisagem vista através de uma janela interrompida por grossas barras de qualquer coisa opaca.

Não é, portanto, dos melhores destes contos. Longe disso.

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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Lido: Coração Atómico

E eis que depois de muitas páginas ocupadas com ficções disfarçadas de outras coisas (a par de alguns artigos, entrevistas e anúncios genuínos) chegamos finalmente aos contos propriamente ditos. Ao todo são três. O primeiro é este Coração Atómico, de Manuel Alves.

Trata-se de um conto filosófico centrado em dois autómatos dotados de inteligência artificial complexa, os primeiros do seu género, um de alguma forma masculino, o outro feminino, e relata o momento em que tudo muda para eles e, de certa forma, para tudo o que os rodeia. Também é um conto de laboratório bastante comum, completo com cientista brilhante e excêntrico e tudo, que não destoaria das ficções científicas do início do século XX, o que talvez tenha sido propositado. Se foi, essa parte da estruturação da história está muito bem conseguida. Também bem conseguido é o texto em si, pois está bastante bem escrito. No entanto, o enredo torna-se algo previsível quando começa a matutar sobre as insuficiências da humanidade, numa atmosfera de conto cautelar muito óbvia, movida principalmente a diálogos entre os dois autómatos e o seu Criador e, depois, entre aqueles e um agente, que não se percebe muito bem se é revolucionário, reacionário ou outra coisa qualquer, mas tem como objetivo claro a obtenção de controlo sobre aquelas máquinas miraculosas, pois tecnologia é poder, e é sem grande surpresa que chegamos ao desfecho. A última frase, então, é quase uma moral da história.

Eu teria preferido menos previsibilidade e menos frases de efeito e tiradas com a ambição de ser profundas, mas o conto é bom.

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Lido: Coronel Pança em Pânico

Quem não perceba de imediato a referência contida no título dificilmente deixará passá-la no início deste continho, que se refere a uma "aldeia da Mancha" de cujo nome o narrador recusa lembrar-se e, se deixar, só pode ser por nunca ter passado os olhos pelo Dom Quixote de Cervantes. Mas Luiz Bras não se limita a tirar o chapéu ao espanhol com este Coronel Pança em Pânico; se dá início ao conto com uma aparência de simples homenagem, depressa pega no caráter alucinatório da cruzada do cavaleiro hispânico contra os moinhos de vento e a extrapola, dando-lhe a volta, acabando por construir um continho de ficção científica surpreendente, muito bem congeminado e igualmente bem escrito, sobre uma ação militar que se volta contra quem a comete e tem a ver com granadas de gás alucinogénico. O narrador, em primeira pessoa, é, percebe-se, o tal Coronel Pança (chamar-se-á Sancho? Quiçá), a voz da sensatez no meio da loucura, como não poderia deixar de ser, e ele lança ao mundo um alerta contra o delírio. Infrutífero? Luiz Bras não nos diz, mas quer-me parecer que sim.

Um continho delicioso, este. Dos melhores de todo o livro, pelo menos para já.

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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Lido: O Verdadeiro Dr. Fausto

Uma constante da literatura ocidental (e não só ocidental, diga-se de passagem) é a apropriação e reimaginação de antigas lendas populares pelos escritores, grandes e pequenos. Algumas dessas lendas funcionaram como sementes de que brotaram autênticas e frondosas árvores, e aqui ia adjetivar com literárias mas a verdade é que elas muitas vezes extravasam a literatura. Em alguns casos, géneros inteiros nasceram delas — é bem conhecida a influência que as sagas nórdicas tiveram na fantasia épica, por exemplo — e acontece com frequência que as adaptações, releituras ou reimaginações acabem por eclipsar as lendas que lhes deram origem (ao mesmo tempo que as perpetuam, paradoxalmente).

A história de Fausto, uma antiga lenda alemã sobre um erudito entediado que vende a alma ao diabo em troca de conhecimento ilimitado e prazeres terrenos, muitas vezes adaptada e interpretada antes disso, ganhou especial notoriedade após a sua adaptação a teatro em verso por Goethe, um dos fundadores das letras alemãs. Depois, tudo e mais alguma coisa serviu de veículo para adaptações ou inspirações faustianas: óperas, sinfonias, teatro, cinema... e, naturalmente, literatura. Literatura fantástica. Não direi que sempre, pois não conheço tudo, mas pelo menos a esmagadora maioria das obras o é.

O Verdadeiro Dr. Fausto (bibliografia) é mais uma dessas adaptações. Há um detalhe, porém: Michael Swanwick, o autor, é um escritor que se notabilizou principalmente na ficção científica, e é a linguagem da FC que ele traz para o mito de Fausto. Ele presta-se a isso, convenhamos: a ideia de que a venda da alma pelo erudito resulta na sua obtenção de conhecimento ilimitado abre desde logo a porta à exploração do mito pela ficção científica, pois o conhecimento, a sua evolução e a tecnologia que ele traz por arrasto (e as mudanças sociais que as evoluções tecnológicas precipitam) são o principal material de que é feita a FC. Em consequência, o Mefistófeles de Swanwick não é propriamente a criatura demoníaca e sobrenatural que se esperaria encontrar, mas sim uma espécie de alienígena tecnologicamente avançado (e muito, muito iconoclasta; e muito, muitíssimo sádico), que comunica com Fausto por intermédio de uma espécie de portal espaçotemporal.

E Fausto é de facto muito verdadeiro, no sentido de seguir fielmente a personagem da lenda, mas também de ser um homem credível do tempo em que Swanwick o coloca: um tipo intratável, insultuoso para com os que encara como inferiores (toda a gente, basicamente), mas ao mesmo tempo brilhante, dono de uma curiosidade insaciável, à semelhança de qualquer grande nome da ciência renascentista, agudamente consciente das insuficiências da sua época. Quando a mefistofélica criatura lhe propõe o trato, nem tenta resistir, reconhecendo de imediato o imenso potencial dos conhecimentos científicos de que ela dispõe, pondo-se logo a fazer planos para melhorar isto e aperfeiçoar aquilo. É aqui que os antecedentes ciencioficcionais de Swanwick mais contribuem para destacar das demais esta adaptação do mito, pois enquanto estas se ficam quase sempre pelos dilemas interiores do protagonista, a de Swanwick cedo se volta para o impacto social do conhecimento acabado de chegar ao mundo.

Não que este impacto seja grande, pelo menos de início. Fausto é ingénuo o suficiente para julgar que os factos e ideias revolucionários que Mefistófeles lhe fornece vão ser acolhidos pelos demais com algo que não seja chacota e rejeição, e o início do romance é uma história de desilusão e raiva impotente contra a estupidez do mundo, o qual, por seu turno, olha Fausto com a condescendência vagamente apiedada que se concede aos loucos.

Mas a verdade científica tem esta curiosa característica de acabar sempre por prevalecer (e é pena que pareça ser preciso ler autores de ficção científica para se ter contacto com obras que reconheçam totalmente este facto) e, aos poucos, Fausto vai conseguindo arranjar maneiras de aplicar os conhecimentos que lhe são oferecidos de formas que nem o mais obtuso é capaz de negar. Claro: os problemas nunca cessam e aí surgem as inevitáveis acusações de bruxaria. Mas também isso é ultrapassado e, com o auxílio sempre irreverente de Mefistófeles, que parece estar a fazer uma experiência sociológica muito sua, Fausto acaba por dar origem a uma revolução industrial antecipada, o que faz também com que o romance entre pela história alternativa. E por fim...

Mas não, vou deixar o fim para os leitores do livro.

Porque acho mesmo que devem ler o livro. Vale muito a pena. Quer se aprecie ficção científica, quer se queira ter uma visão mais abrangente do que se pode fazer a partir dos mitos faustianos, ou de literatura popular em geral, quer se tenha um sentido de humor capaz de apreciar uma dose considerável de iconoclastia, quer se tenha tendências filosóficas, quer se alimente interesse por sociologia, quer se goste de boa literatura, este é livro que vale muito a pena ser lido. É um livro francamente bom, uma daquelas ficções científicas que não precisa de estar permanentemente a atirar à cara do leitor que se trata de FC mas que não é por isso que funciona pior tanto como FC quando como literatura tout court.

Este livro foi comprado.

Lido: Em Breve: "O Intrépido Teófilo no Rio Amazonas"

Mais mangas feitas com o pano Teófilo, ainda, claro sob a batuta de Carlos Silva. Depois de um artigo que descreve um dia na agitada vida da personagem na capital portuguesa e de uma crítica literária arrasadora para obra e obreiro, aqui temos um anúncio tonitruante, que basicamente fornece uma sinopse do próximo (e excitante!) lançamento saído da pena aventureira e intrépida de Teófilo Pais. Em Breve: "O Intrépido Teófilo no Rio Amazonas" promete com uma prosa algo tosca (terá sido propositado? Se sim, tiro o chapéu) e com umas peculiaridades ortográficas um pouco estranhas (Amazônia é como se escreve Amazónia... no Brasil) um livro cheio de aventura e mistérios desvendados em rigoroso exclusivo! Soem fanfarras.

Não fico propriamente com vontade de ler o livrinho aqui anunciado, mas fico com vontade de ler mais sobre o Teófilo, intrépido ou aldrabão. Não gosto de pulp, é certo, como aliás quem não tenha caído aqui por acaso já deve estar farto de saber, mas divirto-me com coisas a gozar com o pulp. Até escrevi um romance assim e tudo. E este filão Teófilo tem pano para mais mangas.

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lido: Crítica Literária de "O Intrépido Teófilo nas Ruínas do Cairo"

Das notícias falsas passamos à crítica falsa a um livro inexistente, nomeadamente um livro do Intrépido Teófilo que já encontrámos alguns textos antes. Trata-se da Crítica Literária de "O Intrépido Teófilo nas Ruínas do Cairo", um dos populares volumes do intrépido autor, e diga-se que o anónimo crítico (de novo o Carlos Silva, naturalmente) está tudo menos embevecido pelos dotes literários do amigo Teófilo Pais. Na verdade, desanca-o com violência. Ou melhor: desanca-o a ele, desanca a obra (uma obra que não obriga o leitor a consultar o dicionário, francamente!) e desanca os leitores que teimam em ler aquilo, ainda que essa surra seja pelo menos em parte movida a preconceitos de classe e a uma conceção de literatura a atirar para o pedante.

Escrevi antes que o Intrépido Teófilo é personagem que dá pano para mangas, e aqui está mais uma manguinha. Uma manguinha que não só é francamente divertida, pois um leitor fica na dúvida se há de achar mais merecedor de risos condescendentes o criticado ou o crítico, como contribui para tornar a personagem mais tridimensional e complexa. Para este texto ser realmente bom, parece-me, só faltaria adequar a prosa do crítico à sua personalidade e às suas opiniões, enchendo-o com os rodriguinhos presunçosos e as palavras rebuscadas que alguém assim certamente escreveria, mesmo numa crítica de jornal.

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terça-feira, 18 de abril de 2017

Lido: Obituário do Barão das Antas

Mais sintonizado com o steampunk do que os artigos ficcionados de João Ventura, este Obituário do Barão das Antas, de A. M. P. Rodriguez, é um exercício de bairrismo tripeiro-futebolístico, bem sucedido na ironia mas não muito bem sucedido na condição de obituário, pois resume uma pessoa apresentada como relevante o suficiente para ter ganho uma baronia a uma única invenção: a de um árbitro de futebol robótico "cheio de fair-play" (ou seja: que rouba para o Porto da forma mais objetiva possível). Dá a ideia de que Rodriguez teve a ideia da engenhoca mas não soube bem como pô-la em prática, e esta é outra das várias notícias ficcionadas presentes no livro que muito provavelmente ficariam melhor em contos ou novelas ou até, em certos casos, romances mais bem desenvolvidos. Isso e algumas frases em que não consegui descobrir sentido (o que significa, por exemplo, o fim da seguinte frase: "Embora parte do algoritmo nunca tenha sido revelado ao grande público, sabe-se que há uma conjugação entre as decisões de impasse e as correntes do vapor interior do autómato por magnetismo."?)  fizeram com que não tivesse gostado muito deste texto.

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Lido: No Útero da Mãe

Uma mulher aterrorizada espera o marido neste continho de quatro páginas. O título, No Útero da Mãe, dá algumas pistas do porquê, mas é no decorrer do conto que Ricardo Lopes Moura as concretiza melhor. A mulher está aterrorizada porque o marido tem tendência para explodir em violência quando é contrariado, quando as frustrações e a pobreza levam a melhor sobre o seu autocontrolo, e no útero da mãe, no seu útero, há algo que, pensa ela, vai fazer com que a explosão aconteça com uma força até aí inaudita. O que de facto acontece não é bem o que está à espera.

Este é um conto inteiramente vinculado ao real, mas onde o terror não deixa de estar presente. Um terror psicológico, movido a abuso e a violência, e Lopes Moura constrói toda a história de uma forma razoavelmente subtil. Infelizmente, o desfecho é demasiado delicodoce para a realidade mais comum dos factos; não que a espécie de redenção que aqui nos é descrita não possa acontecer, mas a triste realidade é que com grande frequência as relações abusivas permanecem abusivas até chegarem ao fim... e, dizem-nos as estatísticas, demasiadas vezes esse fim é uma morte.

Em todo o caso, isto é um conto e, não fossem algumas fragilidades na escrita, penso que poderia ser um bom conto, pois não é nada fácil criar uma densidade psicológica tão grande em meras quatro páginas de texto.

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Lido: O Vapor e a Electricidade

Ainda na senda de escrever artigos ficcionados que subvertem de algum modo o conceito de steampunk, João Ventura apresenta de seguida este O Vapor e a Electricidade, texto inteiramente jornalístico, meio em jeito de crónica social, meio em jeito de crítica teatral, que se debruça sobre a apresentação de um espetáculo com esse título onde versões antropomorfizadas do vapor e da eletricidade discutem em verso heptassilábico — com exemplos — os méritos de cada forma de captação e utilização energética. Um texto curioso que, tal como o anterior, seria muito verosímil enquanto texto real do mundo real, não sendo pois preciso postular alternativas steampunk para o enquadrar. Em parte por isso, mas também por estar despido da ironia habitual em Ventura, parecendo destinar-se principalmente a demonstrar dotes de versejador e a debitar uma ou duas ideias sobre os méritos e deméritos das máquinas a vapor ou elétricas, mais a mais pouco originais, não creio que ultrapasse o grau de "curioso". João Ventura tem muito melhor.

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domingo, 16 de abril de 2017

Lido: Herói da Causa

Pega-se em mais um conto de Telmo Marçal ou, como neste caso, numa noveleta, e já se sabe que o que aí vem é uma absoluta distopia ambientada numa sociedade totalitária em que a vida humana não vale nada e só a crueldade e a prepotência são valores que talvez deem alguma garantia de alguma espécie de sobrevivência. Ou talvez não; talvez nem assim.

Herói da Causa (bibliografia) não destoa. Ornatus Ludiv, o protagonista, é um condenado e por isso é sujeito a todas as violências e torturas imagináveis num sistema prisional cujo único fito discernível é arrancar confissões custe o que custar. Se alguém fizesse perguntas e conseguisse evitar ser atirado para algum calabouço esquecido ou, bem pior, não esquecido, talvez obtivesse a resposta de que os fins, como é timbre dos sistemas opressores, justificam os meios. Mas aos poucos vamos percebendo que não é só isso que Ludiv é.

A questão é que apesar de tudo, como que milagrosamente, subsiste uma resistência ativa, clandestina, composta por subversivos que combatem pela simpatia. E sim, mesmo ali nas trevas sociais das prisões. Segundo acabamos por perceber, Ludiv foi encarregado de se infiltrar nas fileiras dessa resistência para melhor a destruir por dentro. Mas o sistema é o sistema. Apesar de se dedicar tão aplicadamente a infligir o máximo possível de dor a suspeitos e condenados, não deixa de ser impessoal, burocrático, tão indiferente como qualquer sistema. E sendo as ficções de Marçal o que são, Ludiv não poderia nunca deixar de ser vítima disso.

É mais um bom conto, se encarado de forma isolada mas que, no contexto deste livro, se torna previsível. Entre uns contos e outros deste livro mudam os cenários, umas vezes mais, outras menos, mudam um pouco os enredos, mas o que está subjacente às várias histórias pouco se altera, o que as vai tornando um pouco cansativas à medida que se vão sucedendo. E esta, por ser a última, é entre todas a que é mais prejudicada por isso.

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Lido: Este Nosso Vasto Mundo

Mantemo-nos ainda na secção de "notícias", onde João Ventura torce de forma curiosa o conceito de steampunk, escrevendo um artigo de jornal muito típico e também muito verosímil, que não faria má figura em qualquer coluna de curiosidades (aliás, Este Nosso Vasto Mundo podia perfeitamente ser título de uma coluna dessas) de qualquer jornal ou revista do século passado. Descreve o artigo um culto à carga, descrito durante um congresso de antropologia, que se teria desenvolvido numa ilha da Polinésia e teria como centro de adoração o motor a vapor de um navio encalhado. A habitual ironia de Ventura está aqui presente e a forma redonda com que o conto/artigo é fechado atenua a sensação de que seria mais interessante ler uma ficção mais desenvolvida sobre o dito culto, o povo que lhe deu origem e a proveniência da maquineta a vapor. Ventura especializou-se neste tipo de ficções ultracurtas, frequentemente envoltas em roupagens jornalísticas, ou quase, e fá-las muito bem. E uma das razões para as fazer muito bem é saber evitar deixar água na boca dos leitores. Ou saber deixar pouca, pelo menos. É isso o que faz aqui: deixa, mas pouca.

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sábado, 15 de abril de 2017

Lido: Quadragésima Quinta Demonstração Pública Anual da Academia Real de Ciências

Continuando a avançar pela secção de "notícias", encontramos uma peça sobre a Quadragésima Quinta Demonstração Pública Anual da Academia Real de Ciências, escrita por Pedro Cipriano, e aqui a utilização da gíria jornalística faz todo o sentido porque se trata, de facto, de uma notícia. Falsa, naturalmente. Ficcionada. Descreve o evento que o título identifica, uma competição de inventores num Portugal steampunk e monárquico, e respeita fielmente o estilo jornalístico de produção noticiosa, o que é em parte responsável por ser um texto seco e pouco interessante em termos ficcionais. É o paradoxo desta secção que quanto mais inadequados os textos sejam enquanto exemplares noticiosos mais interessantes se tornem enquanto ficções. Mas neste caso não se trata só disso, pois as próprias invenções referidas na peça são pouco imaginativas, o que também contribui para retirar interesse ao texto.

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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Lido: Um Dia na Vida do Intrépido Teófilo

Ainda na secção dedicada a "notícias", encontramos este texto de Carlos Silva, alegadamente escrito por um repórter que tem como incumbência acompanhar Um Dia na Vida do Intrépido Teófilo, Pais de apelido, uma daquelas personagens maiores que a vida que aparecem de vez em quando nas artes narrativas. É um conto interessante (e, apesar de ser apresentado como notícia, funciona perfeitamente se encarado como conto típico), apresentando-nos a personagem, o ambiente, naturalmente steampunk, e o que a personagem faz na vida. Mas de forma ambígua, pois o Teófilo tanto pode ser realmente intrépido, um verdadeiro aventureiro que financia as aventuras produzindo livros populares em que as narra, como um mero vigarista, que arranjou um estratagema para viver confortavelmente com a renda que obtém da personagem em que se transformou.

Mais uma vez, este é conto que dá pano para mangas. O Teófilo é uma personagem que merece ser explorada. Contudo, ao contrário de vários dos outros contos em que sobra muito pano para as mangas que apresenta, neste as coisas encaixam bem ainda que, e talvez paradoxalmente, a sua fraca adequação ao que se espera de uma notícia seja um dos fatores que fazem com que funcione enquanto texto de ficção.

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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Lido: Gata Borralheira

Poucos dos contos dos Irmãos Grimm são tão famosos como este, Gata Borralheira, e nenhum o é mais. Contudo, aquilo que o tornou especialmente famoso, a adaptação da Disney, não lhe é inteiramente fiel. Oh, sim, temos aqui a madrasta má e as respetivas filhas, ainda piores, a pobre rapariga maltratada que sonha ir aos bailes do príncipe, e o próprio príncipe que por ela se apaixona com o estalar de um dedo. E sim, também cá existe uma peça de calçado que resolve a história. Mas quem pega neste conto esperando encontrar nele um sapatinho de cristal termina a leitura tristemente desapontado, pois o original fala, isso sim, de um chinelo dourado. E o original também é significativamente mais sanguinolento do que as adaptações suavizadas dão a entender.

Mas o que mais me surpreendeu ao ler esta história não foi nada disso: foi ter deparado com características de lengalenga, que tão comuns são nos contos populares portugueses mas têm rareado nestas reinvenções dos Grimm. Que os irmãos tenham preservado essas características nesta história, assumidamente composta a partir de três contos diferentes, leva-me a supor que provavelmente haverá bastantes mais lengalengas também nos contos tradicionais alemães do que a leitura das histórias dos Grimm pode levar a pensar.

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quinta-feira, 30 de março de 2017

Lido: Portugal e o Mundo Interior

Ainda na secção dedicada a "notícias", isto é, a pequenos contos escritos sob a forma de artigos mais ou menos noticiosos, vamos encontrar Portugal e o Mundo Interior, de Joel Puga, uma ficção subterrânea baseada nas histórias sobre a Terra Oca, que descreve o modo como uma expedição portuguesa atinge um mundo subterrâneo iluminado por dois "sóis" e o que lhe acontece depois. E, de novo, a sensação principal que a leitura deixa é de potencial desaproveitado, de esboço de (início de) um romance que poderia ser bastante interessante, em especial se Puga quisesse e lograsse evitar um certo tom nacional-porreirístico a que o tema se presta. Durante a leitura de um texto que despacha em duas penadas a perfuração de um longo túnel, uma série de peripécias e o início de uma guerra, este leitor, pelo menos, ansiava por uma versão muito mais desenvolvida, que realmente envolvesse quem lê nessas peripécias e perigos, e de preferência que soubesse fazer as devidas homenagens aos inspiradores (Júlio Verne está aqui claramente presente, pelo menos) sem as tornar demasiado intrusivas. Mas não é isso que aqui temos. Pena.

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quarta-feira, 29 de março de 2017

Lido: Explosão da Fundição de Sinos

Explosão da Fundição de Sinos, de Manuel Alves, partilha com o texto anterior a característica de ser um conto apresentado como artigo noticioso e também uma outra: ambos são construídos em volta de crimes e da investigação que lhes sucede. Mas isso é basicamente tudo o que os dois textos têm em comum. Onde o texto de Pedro Ferreira toca de raspão o steampunk, o de Alves coloca-o no centro de tudo; onde o texto de Ferreira se fica pela rama no que toca à parte investigativa, deixando entrever que haveria ainda muitos factos por apurar, o de Alves consegue, de uma forma bastante hábil, dar a entender que o mistério deverá perdurar, pois os investigadores já terão desenterrado todos as provas disponíveis, sem que elas façam grande sentido.

Conta este texto o que é possível contar sobre o misterioso desaparecimento de um tal Engenheiro Henrique Aldim, talvez vítima da explosão a que o título faz referência, embora o corpo não tenha sido encontrado e apesar de haver notícias de que, pouco antes da explosão, um grupo de encapuzados teria entrado aos tiros pela Fundição dentro. Também destes encapuzados não há rasto. O leitor recebe a maior parte da informação relevante através de alguns fragmentos de páginas escritas, que teriam pertencido ao diário do malogrado engenheiro, e que deixam entrever uma história complexa com ramificações por desenvolvimentos tecnológicos no campo da robótica e, ao que parece, pela espionagem industrial... ou talvez da outra? Não é claro.

Esta é uma história bastante bem contada, que consegue deixar água na boca ao mesmo tempo que se encerra em si mesma de forma satisfatória. Um dos melhores textos desta publicação.

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segunda-feira, 27 de março de 2017

Lido: Insólito "Crime" nas Margens do Tejo

Não sei bem se era comum os almanaques de antanho terem a sua secção de notícias; nunca vi tal secção em nenhum, visto tratar-se de publicações menos ancoradas à atualidade do que um jornal ou uma revista. Mas este tem, e Insólito "Crime" nas Margens do Tejo, assinado por um tal Rodrigo Dias, que na verdade é Pedro Ferreira, é um conto em formato de notícia de jornal, que relata os factos relativos a um crime, aparentemente passional, no qual o steampunk aparece de forma quase casual por intermédio de um par de maquinetas usadas por dois dos investigadores que, no entanto, não têm nenhuma influência na trama, pois do resultado dessas investigações não nos chega notícia. É por esse motivo que não me parece que este conto seja satisfatório, pese embora vir escrito numa prosa bastante competente enquanto prosa jornalística, e ainda que possa bastar àqueles que fazem do steampunk uma ideia basicamente cosmética. E os que dão à estética primazia sobre a especulação ficcional são uma corrente inteira, e isso, na minha opinião, é pena. Para mim, a estética não basta. Longe disso.

Textos anteriores deste livro:

Lido: A Bela-Menina

Há, nos contos populares de vários países, várias histórias que têm nos príncipes encantados, magicamente transformados numa quantidade de monstros ou animais o seu principal motor narrativo. A Bela-Menina, recolhida por Adolfo Coelho em Ourilhe (é relevante a recolha ter sido feita nesta aldeia minhota dadas algumas peculiaridades linguísticas do texto que o afastam um pouco do português habitual) é um exemplo bem português, uma história maravilhosa (naturalmente), cuja moral, razoavelmente complexa mas também bastante cristã, defende a tolerância para com o que e os que são diferentes, a supremacia moral de bons sentimentos como a piedade e a resignação com aquilo que cabe em sorte a cada um. A Bela-Menina do título é uma rapariga urbana cuja família é forçada a mudar-se para a aldeia pelos azares da sobrevivência e, longe de fazer dessa mudança um drama, como as irmãs, recolhe dela o que de melhor ela tem para oferecer. É uma história interessante, em parte por causa dos detalhes linguísticos já referidos.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 20 de março de 2017

Lido: Dicas Para Donas de Casa de Madame C.

Não poderia faltar numa publicação deste género a inevitável secção de autoajuda para senhoras, inevitavelmente machista até dizer basta. Dicas Para Donas de Casa de Madame C., a qual na realidade se chama Cláudia Sérgio, é um consultório meio mundano, meio sentimental, composto por sete perguntas e respetivas respostas sobre os mais variados problemas da vida numa sociedade steampunk. Estando longe de ser memorável, tem alguma graça, em especial quando não mete a pata na poça (viagens de dirigível à... Lua? Ui! Esta doeu.) ou quando não se vai inspirar na vida real de forma demasiado óbvia (cozinha tradicional vs. a "nova bimbautomática"? Ahem...). Quando não é o caso, aparecem aqui e ali algumas ideias curiosas que, mais uma vez, dão vontade de ver mais bem exploradas em ficções mais desenvolvidas. Em especial o dilema da Brigite, mulher com inteligência e queda para coisas mecânicas, poderia ser desenvolvido numa história bastante interessante.

Textos anteriores deste livro:

domingo, 19 de março de 2017

Lido: O Duelo que não Aconteceu

Ainda incluído na secção de artigos, João Ventura apresenta uma brevíssima historinha, escrita num estilo razoavelmente semelhante ao de um artigo de jornal, sobre uma disputa entre dois cientistas que quase degenerava em duelo. Mas não, acabou por ser apenas O Duelo que não Aconteceu porque, enfim, um homem não é de ferro. Mesmo se cientista.

Quem já conhece o que Ventura escreve não se surpreenderá por encontrar aqui a sua habitual ironia e brevidade narrativa, ajudadas por um uso rigoroso das potencialidades do steampunk. Também positiva é a adequação da ideia à extensão do texto, pois aquela parece realmente não dar muito mais pano para mangas do que o que aqui se desenrola.

Por outro lado, o facto de a ideia não parecer dar para mais que página e meia (em tipo grande) ajuda a fazer com que esta história não tenha grande impacto; é uma historinha morna e divertida mas disso não passa, ficando algo longe dos melhores contos que Ventura já publicou.

Textos anteriores deste livro:

sábado, 18 de março de 2017

Lido: Salto no Tempo

A ficção científica dos anos 40 e 50 do século passado raramente envelheceu bem o suficiente para chegar aos dias de hoje ainda com alguma frescura. Em parte isso deve-se a ter sido encarada muitas vezes, tanto por gente de fora do género, como por gente de dentro, como paraliteratura, mero objeto de consumo e produção rápidas, sem grande elaboração, concentrando-se na trepidação da ação em enredos mais ou menos mirabolantes e pondo de parte quase tudo o resto que compõe a experiência literária. A famigerada abordagem pulp à coisa.

Nem toda foi assim, naturalmente. E felizmente. Mas muita foi, e nisso nem existem tão grandes diferenças entre a FC dos vários países como por vezes se apregoa. E este livro, francês, é disso um claro exemplo.

Salto no Tempo (bibliografia) não é propriamente um livro de viagem no tempo, ao contrário do que o título português (que se substitui por completo ao original Via Velpa, diga-se) sugere. Yves Dermèze cria aqui uma aventura pulp movimentada que inclui viagens no tempo mais vai além disso, metendo também ao barulho o conceito de universos paralelos. O enredo é enovelado, pois há uma rapariga vinda do futuro (que tem a função habitual das mulheres nas histórias pulp de meados do século XX, o interesse romântico do herói macho, mas é um pouco menos incapaz do que é hábito) que procura salvar a sua civilização do ataque de umas criaturas implacáveis, destruindo a civilização que lhes deu origem, para o que conta com o auxílio de um dissidente político genial de uma civilização rigidamente totalitária, que vem a descobrir que essas criaturas foram criadas pela sua própria civilização, e por aí fora.

Dermèze consegue manter este enrodilhado enredo sob controlo, criando um romance ritmado e razoavelmente interessante. Mas claro, pulp, com tudo o que isso implica. Acaba-se a leitura, chega-se ao final que, como é habitual neste tipo de história, soa a conto de fadas, e descobre-se que enquanto ela durou se esteve entretido mas não se obteve mais do que isso do tempo gasto. Este livro é literatura-chiclete assumida e, sob esse ponto de vista, até se poderá considerá-lo bonzinho. Mas esteve longe de me agradar. Leu-se. E só.

Este livro foi comprado.

Lido: O Vapor do Chique

Ao mesmo tempo semelhante e completamente diferente da Carta Anónima que o antecede, O Vapor do Chique é mais um texto ficcional epistolar, escrito por uma tal Madame S., que na realidade é Rogério Ribeiro. Conta a breves pinceladas três historinhas do "social", às quais falta a solidez que se encontra no texto anterior, apesar de estarem razoavelmente bem escritas. A futilidade, embora presente, não é tão grande como talvez fosse de esperar de uma espécie de crónica social, ainda que o tom genérico seja de comédia de costumes, como num texto deste género teria sempre de ser. Nesse sentido, o autor foi bem sucedido no que se propôs fazer.

Este texto tem também em comum com o anterior (e com vários dos outros, diga-se) a característica de despachar em dois tempos temas e personagens que deixam entrever potencial para ficções mais longas, as quais provavelmente teriam o seu público, ainda que neste caso eu não pertencesse a esse público — a minha paciência para comédias de costumes centradas nas andanças da alta sociedade, sejam steampunk ou quaisquer outras, tende para zero.

Textos anteriores deste livro: